05
abr
11

E.T.A. Hoffmann morde e também assopra

É impossível não notar as semelhanças entre o personagem androide de Morde e Assopra e o autômato de E.T.A. Hoffmann. É bem provável que Walcyr Carrasco tenha tido contato com a obra de Hoffmann. Os mesmos elementos estão lá, apenas com algumas correções de época, servindo (voluntária ou involuntariamente) como forma de mascarar a fonte. Trata-se da ideia do autômato, criado por um cientista, pelo qual um estudante se apaixona. É o mesmo roteiro apresentado por Hoffmann, salvo, como já dito, diferenças básicas de época. A criatura de Hoffmann é Olímpia, a de Walcyr é Naomi e, incrivelmente, as duas tocam piano perfeitamente e, num determinado momento da história, ao tocarem piano, arrebatam o o coração de algum rapaz ingênuo ou cego. Apesar de Hoffmann tender ao fantástico, quando trata da essência que faz o autômato parecer vivo, Carrasco ateve-se a recursos científicos e tecnológicos (ou será que não?). Recursos esses que nos levam a mais fontes.

Portanto, cabe aqui outras referências quando o assunto é a mulher-robô do autor de novela.

Não se pode deixar de fora o filme Mulher nota mil, famoso nos anos 80, onde a criatura, objeto de desejo, foi idealizada por garotos incapazes de ser populares e, consequentemente, de se envolver amorosamente com mulheres de verdade. Garotos com o computador e uma dose de sorte nas mãos. Ainda sobre a necessidade de ter um sentimento preenchido temos Pigmaleão e seu amor pela mulher ideal, construída por ele, e trazida à vida por Afrodite, devido a tanta insistência do escultor. Portanto, a ideia de autômatos cuja finalidade fosse a de realizar tarefas para nós ou suprir uma necessidade sentimental, não é recente, e sim, basicamente, dos primórdios da cultura. O Golem, criatura antropomórfica, moldada com barro e pedra, entre outros, era forte, obediente e controlável. Era o defensor da sociedade judaica. E na lenda judaica, o Golem é a representação básica do homem, criado por Deus. Esse homem primordial seria também um autômato em essência (imagem e semelhança). Bem, voltemos à figura mecânica feminina, que é o foco noveleiro do momento.

Os robôs da ficção científica povoam livros e filmes, como Blade Runner, onde o homem se apaixona pela máquina que deveria eliminar, ou os robôs servos da literatura de Asimov. Tais elementos nos levam a questionar o que há de amor ou intimidade reais entre homem e máquina (Alguém aí se lembra de Cherry 2000, péssimo filme sobre uma boneca robô de sexo?), ou o por quê de humanizarmos as máquinas com atitudes e posturas humanas. Exemplos mais agressivos podemos notar em Battlestar Galactica, com os modelos femininos de cylons.

É óbvio que o autor noveleiro terá em mãos maiores recursos técnicos e gráficos do que Hoffmann jamais sonhou em ter para prolongar a trama, podendo evitar semelhanças ou mascarar os caminhos até as fontes onde bebeu. A novela da Globo tem tudo para ser decepcionante (assim penso eu, pois, em geral, elas são), e a boneca de sexo do autor Walcyr Carrasco será o estereótipo perfeito para a ideia generalizada de que todo homem, por amor possessivo, abre mão de tudo o que conquistou na vida, põe o futuro a perder e é capaz de vender até a mãe. Ou será possível preferir a superficialidade do padrão Globo de um ideal de amor (tantas vezes repetido em novelas) ao caráter substancial do personagem ensandecido de Hoffmann, enganado e contrariado, vítima de chacota, ainda que apaixonado?

Particularmente, prefiro Hoffmann.

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30
mar
11

a canção do silêncio

O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio é o romance de estreia de José Roberto Vieira, uma emocionante aventura épica em um mundo fantástico e sombrio. Passado, presente e futuro se encontram com a cultura pop numa mistura de referências a animações, quadrinhos, RPG e videogames. Considerado o primeiro romance nacional pensado na estética steampunk, o mundo de O Baronato de Shoah une seres mitológicos como medusas e titãs a grandes inventos tecnológicos.

Desde o nascimento os Bnei Shoah são treinados para fazerem parte da Kabalah, a elite do exército do Quinto Império. Sacerdotes, Profetas, Guerreiros, Amaldiçoados, eles não conhecem outros caminhos, apenas a implacável luta pela manutenção da ordem estabelecida.

Depois de dois anos servindo o exército, Sehn Hadjakkis finalmente tem a chance de voltar para casa e cumprir uma promessa feita na infância: casar-se com seu primeiro e verdadeiro amor, Maya Hawthorn.

Entretanto, a revelação de um poderoso e surpreendente vilão põe Sehn perante um dilema: cumprir a promessa à amada ou rumar a um trágico confronto, sabendo que isso poderá destruir não só o que jurou amar e proteger, mas aquilo que aprendeu como a verdade até então.

Curiosidades sobre a obra e opiniões do autor, visite seu blog pessoal: O Baronato de Shoah

Sobre o autor:

José Roberto Vieira

Nasceu em 1982, na capital de São Paulo. Formado em Letras pela Universidade Mackenzie, atuou como pesquisador pelo SBPC e CNPQ, atualmente é redator e revisor. Teve contos publicados na coletânea Anno Domini – Manuscritos Medievais (2008) e Pacto de Monstros (2009). BLOG www.baronatodeshoah.blogspot.com

Convite do lançamento em SP.

23
dez
10

La Nuit de Noël

Gèrard havia bebido um pouco além da conta e já estava acostumado a se virar em tal estado. Exagerar era com ele mesmo. Mas, com o julgamento demasiado comprometido, ainda se achava apto a dirigir. Ao menos acreditava nisso, pobre coitado. Não fora pego por nenhum policial trafegando bêbado, pois na noite em questão não havia ronda como de costume. É verdade que tentou umas quatro vezes, antes de acertar o buraco da chave na porta do velho Peugeot. Deu a partida, ligou o aquecedor, pois fazia 4 graus negativos, e ligou o rádio, para ouvir suas canções francesas de amor.

Desnorteado, cantarolava enquanto atravessava as ruas escuras de um bairro de Toulousse, indo rumo a Saint-Orens-de-Gameville, onde morava. O excesso de malbec na corrente sanguínea o aquecia melhor do que o aquecedor do automóvel, que, aliás, fedia a plástico queimado. Mas há que se compreender que era um carro velho, tinha lá suas peculiaridades. Um pouco de neve começara a cair e Gèrard acelerou, na ânsia de estar em casa antes da neve aumentar de intensidade. Sim, ele acelerou, em pista molhada e com neve começando a atrapalhar a visão. Francês malandro que era, seguiu por uma rua pouco movimentada e de iluminação escassa. Era como um atalho para ele.

Para o azar de Gèrard, ou do resto da população de crianças em todo o planeta pelo resto dos dias do mundo, um trecho da rua tinha a iluminação danificada. Nesse momento, seu rádio tocava a exuberante voz de Piaf cantando Non, Je ne regrette rien. A neve batia um pouco mais forte em seu para-brisas, e ele não viu o outro veículo cruzar a rua. O Peugeot acertou em cheio o trenó vermelho que cortava a ruela no início daquela fria madrugada natalina que precedia o amanhecer de um 25 de dezembro. Renas foram arrastadas pelo asfalto, enquanto um senhor de idade, rechonchudo e vestindo casaco vermelho, veio a se chocar contra o para-brisas, espalhando vidro estilhaçado e um pouco de sangue dentro do automóvel. O velho rolou sobre o teto do carro e caiu no chão. Fiapos de barba branca ficaram enroscadas no que sobrou do para-brisas.

Extremamente chocado e quase fora de controle, Gèrard saiu do carro com a intenção de ver se o senhor de idade havia sobrevivido. O vento gelado castigava as costas de Gèrard, enquanto ele tentava manter o velho consciente. Levava as mãos à cabeça, gritava por socorro, mas a rua deserta pouco tinha a oferecer. O velho, porém, não resistiu. Morreu estirado no asfalto gelado, a cabeça rachada e o rosto coberto de sangue. As renas, pensava o francês embriagado, certamente deveriam ser sacrificadas na manhã seguinte, devido às fraturas. Não pôde imaginar o porquê de ter pensado isso na ocasião, bem achou que fosse coisa do malbec.

Mas, de repente, como se para aterrorizar Gèrard e seu coração deveras humano, um chiado crescente e constante cortou a escuridão gelada e ele pôde ver, incrédulo, o corpo do velho murchar até virar cinzas. O mesmo ocorreu com as renas, as roupas vermelhas e o trenó diante dos olhos estupefatos do motorista embriagado. E, naquele instante, Gèrard acabara de conceber a dimensão do dano que causara a toda a humanidade: havia matado le Père Noël, o Bom Velhinho, mais conhecido por nós como Papai Noel.

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30
nov
10

O “Deus me livre”

Uma terra distante, um homem rico, fazendeiro, proprietário de uma vastidão de terra e de algumas centenas de cabeças de gado. Enfim, um homem de muita sorte, mas tudo que conquistara na vida perdeu-se. Esta é sua história.

Aparentemente, tudo teve início num dia de ventos de outono quando, enquanto caminhava pela propriedade e um capataz veio lhe falar sobre algumas vacas que haviam adoecido junto com os bezerros. Imediatamente foram separadas do restante do rebanho, mas a doença atingiu ainda outros animais. E por mais que separassem os animais, tentando isolar a doença, outros adoeciam do mesmo mal. Certa noite, sentado à mesa para o jantar, o dito fazendeiro comentou o fato com a esposa e descreveu a situação toda, de maneira detalhada, para que ela pudesse entender o que acontecia. A mulher, bastante sábia, tentava encorajá-lo com palavras de conforto e sua energia positiva: “Calma”, dizia ela, “Deus está cuidando e providenciando o necessário”. Mas ele, ignorando o alento da esposa, afundado que estava em seus problemas, se via incapaz de apelar ao ânimo de continuar batalhando. Todas as noites, da sua varanda, enquanto ponderava sobre a doença do gado, sua cabeça era povoada de pensamentos negativos ecoando frases como “Deus me livre dessas vacas doentes”, ou “esses animais ainda vão me dar muito prejuízo, Deus que me livre!” E assim era aquele homem em seu íntimo.

Outro dia, ao acordar de manhã, recebeu a notícia de que os animais oentes haviam sido encontrados mortos e, segundo seu veterinário, os exames de laboratório nada indicavam como causa da morte. Foi quando comentou alto, no meio dos peões da fazenda:

— Esse negócio de criar animais só dá trabalho! Eu hein! Deus me livre dessa porra!

— Sinhôr num deve falá assim, não — comentou um dos matutos, funcionário de longa data, capataz da fazenda. Um velho supersticioso e reservado. — Vai que Deus te livra memo.

— Tomara — respondeu o fazendeiro.

Mas diante daquilo, se lembrou de um sermão ouvido há muito tempo numa missa dominical na cidade próxima, onde o padre citava uma passagem de Jó, cujo conteúdo ele levava na memória: “Tal é o destino de quem se esquece de Deus…” Essas palavras o marcaram de tal forma, numa época em que era homem religioso e de fé, que fez questão de memorizá-las, apesar de não se lembrar do capítulo onde este trecho se encontrava. Sabia, entretanto, ser de um trecho a respeito do homem perder a fé, ou não ser justo com sua própria esperança*. Mas ele balançou a cabeça negativamente e continuou o dia, trabalhando com a peonada na fazenda.

A cada dia que passava, os animais morriam aos poucos e aos poucos aumentavam as dívidas do fazendeiro. Os dias se arrastaram daquela forma por um longo tempo, até que o governo resolveu tomar metade das terras como pagamento da alta dívida acumulada pelo proprietário. É impossível negar que, apesar de o prejuízo ter sido considerável, houve certamente um período de calmaria, onde todos acreditavam que a fazenda voltaria a produzir e vender. O homem de sorte tinha bons funcionários na fazenda e, sempre que podia, passava horas com eles, tratando dos cuidados relativos aos animais, proseando ou tomando uma pinga no fim do dia. Mas a crise fora tão pesada que um dia, descontentes por não receberem pagamento há algum tempo, os funcionários se reuniram com o capataz e reclamaram do patrão não lhes pagar o justo por cuidarem da propriedade. Quando o capataz foi relatar ao fazendeiro o que os funcionários reivindicavam, o homem só reclamava.

— Gente preguiçosa essa! Deus me livre desses vagabundos! — começou ele. — Bando de traíras. Quando estão comigo, me tratam bem, com respeito, mas é só eu virar as costas que começam a maquinar contra mim? Não vão receber nenhum centavo a mais.

O velho capataz tentou novamente prolongar o assunto que já começava a incomodá-lo.

— Patrãozin. O sinhôr divia tê mais fé nas coisa de Deus.

“Vamos trabalhar que a gente ganha mais” foi o que obteve como resposta. Meses depois quase todos os peões da fazenda haviam deixado o trabalho e migrado para outras propriedades. Agora, com exceção do fiel capataz, só viviam ali funcionários displicentes e pouco preparados para cuidar dos animais, apenas interessados em receber o salário fácil. A partir desse momento, a produção só veio a cair. O capataz, cuja superstição ultrapassava a fé de qualquer padre nas forças divinas, começava a entender a relação entre o que o patrão dizia e o que vinha ocorrendo na fazenda. Inúmeras vezes tentou abordar o assunto com o fazendeiro, sempre sendo rechaçado com um grau de ignorância além da conta. Mas toda paciência se esgota e, depois de tanto insistir em alertar o homem, o velho deixou o trabalho na fazenda e se afastou do patrão.

A esposa, indignada ao ver aquilo, foi procurar uma satisfação com o marido, pois estimava o velho como a um pai e sabia o quanto ele era importante ali. E, apesar de tentar ser educada, também foi alvo da grosseria do marido.

Diante de tal situação, ela se viu obrigada a esperar algum tempo para contar uma novidade ao fazendeiro. E só quando ela percebeu que ele parecia estar num dia razoável, é que teve coragem de lhe contar a novidade que tanto a animava. Estava grávida. Com todos os problemas que rodeavam a fazenda, porém, o homem não conseguiu se sentir de algum modo abençoado com aquilo e passou muitos dias murmurando a si mesmo pelos corredores da casa:

— Uma criança, Ah meu Deus. Por que agora? — dizia sozinho. — Deus me livre! Como vou sustentar esse bebê?

Vez ou outra a esposa ouvia os murmúrios pelos corredores e, como se tomada por uma força misteriosa, entrou em depressão. A gravidez não durou três meses. O homem agora vivia mais dentro de casa do que cuidando das terras e sempre lamentava seu infortúnio, sua vida difícil. Cada situação que lhe surgia, era rebatida com um “Deus me livre disso” ou “Deus me livre daquilo”. Acostumou a proferir diariamente essas palavras sem cuidado algum. A mulher, com a perda do bebê e depressão, não comia, não saía de casa, não falava com ninguém. Se comportava como um zumbi sem vontade própria. Os médicos que a visitavam na fazenda não conseguiam identificar o que ela tinha e davam o diagnostico final de depressão. O fazendeiro, não poupando esforços para ver a esposa melhorar, gastava muito com remédios e consultas caras, sem obter resultados promissores.

— Minha fazenda afundando em dívidas e agora a minha mulher doente, fraca e sem vontade para nada. Ah, Deus! Mas que merda tá minha vida. Deus me livre! O que foi que fiz para merecer isso? — dizia consigo mesmo. — Que situação mais humilhante para um homem como eu!

Seis meses de doença e tristeza atacaram a mulher, até que ela não resistiu. Ao velório compareceram apenas os familiares mais íntimos, o velho capataz e alguns trabalhadores da fazenda. O fazendeiro sentado num canto, desolado e abatido com a onda de acontecimentos desafortunados, contemplava o corpo da mulher, enquanto se perguntava “O que fiz a Deus para merecer tanta má sorte?”. O velho capataz, vendo a que ponto chegara a vida daquele homem, voltou a frequentar a fazenda, ajudando o patrão como podia.

Apesar da boa vontade do velho, o patrão o expulsou numa manhã em que ele terminava de consertar uma cerca e as últimas palavras que ouvira do fazendeiro foram “Desapareçam você e suas superstições bestas!” O homem chegou a agredir o pobre capataz antes de enxotá-lo para fora da propriedade, pois, ainda que estivesse passando por uma derrocada na vida, ele sentia soberba e, no seu entender, era superior a qualquer pessoa. Mas a vida tem como recompensar a quem merece e também tirar a paga de quem não faz jus a ela.

Durante meses o fazendeiro não pôde trabalhar, pois suas forças haviam sido drenadas de tal maneira que por dias a fio mal tinha condições de se levantar da cama de manhã. E raramente o fazia. Após um tempo, a fazenda veio a fechar as porteiras, o ínfimo restolho de gado foi vendido e os funcionários remanescentes foram dispensados sem receber o devido acerto. Quem passasse pela região, podia ver ao longe uma terra abandonada, onde mato crescia por todos os lados e o abandono mostrava sua terrível face em cada lugar em que antes florescia vida em atividade constante, com o movimento de pessoas e animais de um canto a outro. Agora os únicos animais que rondavam a casa eram cobras, morcegos e ratos.

O homem reclamava diariamente, em tom bastante alto, mesmo que para ninguém escutar. “Essa porcaria de fazenda não me serviu pra nada nessa vida! Deus me livre! Deus me livre! Onde foi que eu errei? Deus me livre dessa merda de lugar!” Os dias passavam e a fazenda, que já não tinha mais cara de fazenda, só piorava, desaparecendo no meio do mato, quase já cobrindo a casa. Essa situação perdurou até que o fazendeiro, sem dinheiro até para comer, se viu obrigado a vender sua propriedade para quitar mais dívidas contraídas com o governo e os bancos.

Depois que os credores vieram tomar a propriedade, ele caiu por si e sua consciência o transportou para as palavras do seu capataz. Será que agora ele finalmente entendia o que o velho queria dizer? Será que ele havia definitivamente entendido o alerta? Mas agora era tarde demais. Tinha ficado sem nada, sem terras, sem dinheiro, sem sua amada esposa. Tudo havia desaparecido como se fosse uma maldição ou algo assim. No fim das contas a dívida remanescente era tão exorbitante que ficou sem nada, transformando-se em um mendigo sujo qualquer, numa praça da cidade e terminando sua vida perambulando sem rumo pelas ruas. Mas dívida maior era a que tinha consigo mesmo, com a vida e com o Deus que ele abandonara. E só agora ele entendia isso. Mais um motivo para se autoflagelar pelo resto de sua apagada existência.

Nas ruas e nas praças da cidade, quem cruzava com ele via um arremedo de homem, em trapos, enrolado num cobertor sujo, enquanto sussurrava baixinho, sem parar, “Deus me livre! Deus me livre”, como se estivesse entoando um ritual ou oração, ao mesmo tempo em que fazia o sinal da cruz repetidas vezes. E foi desta forma que ficou irremediavelmente conhecido nas redondezas pela alcunha de Deus me livre. E todos sabiam que aquele homem fora outrora um fazendeiro importante da região. Um homem em quem agora as crianças atiravam pedras e gritavam “ô, Deus me livre”, “vai embora, Deus me livre”. Assim terminaram os amargos dias do outrora fazendeiro, reduzido a nada, graças ao poder da palavra.

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* Livro de Jó, capítulo 8.

14
set
09

Um dia de 30 horas

“… daremos um pulo a Júpiter. Estranho mundo esse. Os dias têm apenas nove horas e meia; numa palavra, um verdadeiro paraíso para os preguiçosos.”
— Julio Verne (Cinco semanas num balão).

 

 

Como uma imensa parcela da população humana que caminha neste mundo, Julius Jordan tinha problemas com o sono. É provável que jamais tenha existido uma única pessoa em toda a história da humanidade que, em algum momento da vida, não teve problemas de sono. Seria estresse, ansiedade, depressão, medo, preocupações pessoais? Inúmeros eram os motivos possíveis. Na época de Julius, existiam muitos estudos promissores e técnicas para combater o mal da insônia, que era a responsável por muitos dos problemas enfrentados num dia de trabalho, no casamento e no lazer, por exemplo. Era a vida moderna cobrando seu preço pelo progresso dos homens.

Julius Jordan, o homem comum do século 28 tinhas seus problemas com sono. Dormia pouco e tinha um agravante: o período de tempo entre acordar e sentir sono novamente era mais longo do que o dia conseguia abranger. Para explicar melhor, quando Julius dormia, podia embalar nove, dez horas sem acordar, mas, para voltar a ter sono, era preciso ficar acordado pelo menos 20 horas, ou até mais. Isso, para um homem que tem horários de trabalho regulares durante o dia, era um infortúnio. Foi por isso que, com a nova descoberta que faziam no momento, o sujeito ficou surpreso e, ao mesmo tempo, animado. Nunca tinha feito uma viagem espacial em toda sua vida, apesar de seus 48 anos. Era considerado jovem, já que no século 28 as pessoas viviam muito mais e com saúde em bom estado, graças aos avanços da medicina e da nano-robótica.

Não gostava muito de apelar para as drogas, nem para os micro-robôs geradores de impulsos elétricos causadores de sono, que estimulavam uma reação química para literalmente apagar o paciente. Julius achava que aquilo não era dormir, pois consistia em um sono artificial, forçado e sem sonhos. Era praticamente como se desligassem o cérebro por algumas horas. Julius já tinha experimentado, mas sem sucesso, pois sempre acordava cansado e indisposto. Ele acreditava definitivamente que era graças à ausência dos sonhos.

Taxada como um problema que vinha se arrastando através dos séculos, importunando a existência humana, a insônia teve várias explicações em diferentes épocas da história, mas tais curiosidades soavam indiferentes ao homem em questão. Seu único desejo era dormir, ter sono regular, prazeroso e revigorante. Ao ver o noticiário em seu palmfone, tratou logo de entrar em contato com um escritório da agência espacial do seu país. A questão que agitava o velho Julius Jordan era a nova descoberta de um planeta habitável fora de nossa galáxia. O governo, ao anunciar a descoberta, também recrutava voluntários para a colonização imediata e pesquisa do novo habitat, com vistas a expandir a atuação da humanidade no espaço e suas chances de colonização. O número de recrutas a ocupar o novo planeta ultrapassava a casa dos 50 mil, portanto Julius tinha grandes chances de embarcar nessa viagem interestelar. Graças a um avanço científico do século 26, que concretizou uma antiga teoria de de abrir “portais” através do espaço, o homem agora desbravava o universo mais facilmente do que em qualquer outra época anterior. E foi numa dessas expedições que encontraram o tal planeta com atmosfera habitável, num setor muito distante, mas ainda dentro da nossa galáxia.

As normas da agência do governo estabeleciam que os voluntários deviam ter entre 22 e 60 anos, faixa etária economicamente ativa e com maiores capacidades de resistência imunológica a agentes infecciosos.

Mas qual o atrativo de uma mudança tão drástica de vida para um homem comum da Terra? O quê movia os passos de Julius ao se candidatar voluntário nessa expedição rumo ao desconhecido? Afinal, era um novo planeta, completamente selvagem, com um ecossistema totalmente desconhecido e provavelmente hostil, onde se formariam colônias da Terra trabalhando para descobrir e povoar, coletando e enviando informações periodicamente à agências espaciais em todo o mundo, com fins de pesquisa tecnológica, mapeamento e registro de fontes energéticas e recursos materiais.

Aparentemente, o que impulsionava Julius a embarcar numa empreitada tão aventuresca como esta era um simples detalhe: a rotação do recém-descoberto planeta em seu eixo durava 30 horas terrestres. Isso significava para Julius um dia e uma noite de 15 horas aproximadas para cada período. E, dependendo de onde seria instalada a base, o tempo de duração do dia podia ser superior ao da noite. Foi aí que finalmente Julius começou a vislumbrar a oportunidade de conseguir dormir suas oito ou dez horas diárias se adaptando ao ciclo daquele planeta. Melhor seria para ele ter um tempo mais espaçado entre os sonos, do que o ritmo habitual das 24 horas da Terra. Seria seu paraíso.

Antes do dia terminar, Julius já tinha deixado sua casa e comparecido a uma agência de recrutamento, se candidatando e apresentando um relatório de suas habilidades e conhecimentos, ciente de que certamente precisariam de um geógrafo qualificado nessa expedição exploratória. Oito horas de sono seria uma dádiva, podendo ficar acor dado 22 horas por dia, sem prejudicar seu rendimento profissional. Podia ser, finalmente, a solução para as noites do senhor Julius Jordan.

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ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

UMA FICÇÃO

...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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- CONTOS FANTÁSTICOS DO SÉCULO XIX (Ítalo Calvino)

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