É impossível não notar as semelhanças entre o personagem androide de Morde e Assopra e o autômato de E.T.A. Hoffmann. É bem provável que Walcyr Carrasco tenha tido contato com a obra de Hoffmann. Os mesmos elementos estão lá, apenas com algumas correções de época, servindo (voluntária ou involuntariamente) como forma de mascarar a fonte. Trata-se da ideia do autômato, criado por um cientista, pelo qual um estudante se apaixona. É o mesmo roteiro apresentado por Hoffmann, salvo, como já dito, diferenças básicas de época. A criatura de Hoffmann é Olímpia, a de Walcyr é Naomi e, incrivelmente, as duas tocam piano perfeitamente e, num determinado momento da história, ao tocarem piano, arrebatam o o coração de algum rapaz ingênuo ou cego. Apesar de Hoffmann tender ao fantástico, quando trata da essência que faz o autômato parecer vivo, Carrasco ateve-se a recursos científicos e tecnológicos (ou será que não?). Recursos esses que nos levam a mais fontes.
Portanto, cabe aqui outras referências quando o assunto é a mulher-robô do autor de novela.
Não se pode deixar de fora o filme Mulher nota mil, famoso nos anos 80, onde a criatura, objeto de desejo, foi idealizada por garotos incapazes de ser populares e, consequentemente, de se envolver amorosamente com mulheres de verdade. Garotos com o computador e uma dose de sorte nas mãos. Ainda sobre a necessidade de ter um sentimento preenchido temos Pigmaleão e seu amor pela mulher ideal, construída por ele, e trazida à vida por Afrodite, devido a tanta insistência do escultor. Portanto, a ideia de autômatos cuja finalidade fosse a de realizar tarefas para nós ou suprir uma necessidade sentimental, não é recente, e sim, basicamente, dos primórdios da cultura. O Golem, criatura antropomórfica, moldada com barro e pedra, entre outros, era forte, obediente e controlável. Era o defensor da sociedade judaica. E na lenda judaica, o Golem é a representação básica do homem, criado por Deus. Esse homem primordial seria também um autômato em essência (imagem e semelhança). Bem, voltemos à figura mecânica feminina, que é o foco noveleiro do momento.
Os robôs da ficção científica povoam livros e filmes, como Blade Runner, onde o homem se apaixona pela máquina que deveria eliminar, ou os robôs servos da literatura de Asimov. Tais elementos nos levam a questionar o que há de amor ou intimidade reais entre homem e máquina (Alguém aí se lembra de Cherry 2000, péssimo filme sobre uma boneca robô de sexo?), ou o por quê de humanizarmos as máquinas com atitudes e posturas humanas. Exemplos mais agressivos podemos notar em Battlestar Galactica, com os modelos femininos de cylons.
É óbvio que o autor noveleiro terá em mãos maiores recursos técnicos e gráficos do que Hoffmann jamais sonhou em ter para prolongar a trama, podendo evitar semelhanças ou mascarar os caminhos até as fontes onde bebeu. A novela da Globo tem tudo para ser decepcionante (assim penso eu, pois, em geral, elas são), e a boneca de sexo do autor Walcyr Carrasco será o estereótipo perfeito para a ideia generalizada de que todo homem, por amor possessivo, abre mão de tudo o que conquistou na vida, põe o futuro a perder e é capaz de vender até a mãe. Ou será possível preferir a superficialidade do padrão Globo de um ideal de amor (tantas vezes repetido em novelas) ao caráter substancial do personagem ensandecido de Hoffmann, enganado e contrariado, vítima de chacota, ainda que apaixonado?
Particularmente, prefiro Hoffmann.
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já dia alguém nada se cria tudo se copia, mas quando a cópia e descarada que lástima!
Não acompanho essa novela, mas já vi algumas cenas. Boa análise, Luciano.
Pois é, parece que agora o roteiro percorre um caminho meio ao estilo “O Homem Bicentenário”. A máquina se questionando sobre sua humanidade incompleta. A vantagem da novela é essa, de se estender e, ao mesmo tempo, poder mudar as coisas num determinado momento da trama.