31
jul
08

Civilização

Uma nave se aproximava daquele planeta. Era uma nave com humanos. O planeta era habitável, com água, oxigênio, florestas, vales, desertos, mares. Enfim, era possível viver ali, como viviam em seu mundo de origem. A expedição espacial 919 foi recrutada, como centenas de outras mais, para descobrir sistemas onde o ser humano pudesse viver. E obteve sucesso. Mas um acidente colocou a tripulação da nave em uma situação sem solução.

Trinta membros da equipe foram designados para descer no novo planeta, coletar informações e material de pesquisa. Viveram por três semanas numa área litorânea, catalogando espécies animais, vegetais e amostras de minérios e substâncias. Cientistas trabalhavam em suas pesquisas e técnicos trabalhavam em operações de equipamentos e manutenção quando ouviram pelo comunicador uma mensagem de alerta vinda da nave. Segundos depois, um clarão no céu e a transmissão com a nave cortada.

O que teria acontecido à nave, pra explodir no espaço, ninguém saberá dizer, mas com aquele grupo de pessoas, um processo digno de nota começou a se estabelecer. Quando estudamos as civilizações e suas origens, temos a conclusão de que certos povos evoluíram e desenvolveram seus próprios costumes, crenças e tecnologia, sem interferências externas. Seria o processo básico da humanidade?

Nas pessoas em questão, o processo foi, de certo modo, retrógrado. Vindos de uma civilização avançada, dependente de tecnologias e detentora de conhecimentos científicos, os novos habitantes do planeta se viram obrigados a viver de forma primitiva, caçando e colhendo alimentos para sobreviver. Após anos naquele planeta, eles já não tinham o respaldo tecnológico de quando ali chegaram e precisaram se virar conforme a necessidade os obrigasse.

Também graças aos longos anos vivendo isolados, a necessidade fez a população se procriar. O sexo trouxe novidades ao mundo. Pequenas novidades. Como já faziam sexo ao natural há muito tempo, as conseqüências logo começaram a surgir. Com o processo de povoamento em andamento, em um período de cinqüenta anos, algumas gerações já podiam ser vistas lado a lado.

Com o rápido aumento da população e a morte dos primeiros habitantes, o conhecimento trazido por eles também começou a desaparecer. A civilização se espalhava, tomando conta, cada vez mais, daquele mundo novo que estava ali, à disposição deles. Com o passar dos anos, gerações e mais gerações foram substituindo as antigas e aquele conhecimento científico dos primórdios desapareceu, dando lugar a crenças e superstições locais em vários povoados dos novos habitantes, que se espalhavam pelo planeta e ocupavam terras para sobreviver.

Foram surgindo as primeiras lendas e os primeiros mitos, inclusive sobre a nave que trouxeram os primeiros humanos. As histórias que os antepassados transmitiam, via tradição oral, foram se banalizando e se convertendo em relatos míticos. Os primeiros humanos agora eram deuses ou heróis de tempos antigos que vieram de lugares distantes e inimagináveis. Tudo o que eles eram capazes de fazer era agora entendido como poderes mágicos.

O mito se instalou, as crenças populares foram tomando o lugar da razão e as lendas eram agora tidas como relatos verídicos de acontecimentos do passado. Da ciência o homem imaginou monstros e deuses, dando nomes a cada um e criando religiões baseadas nessas crenças. Os primeiros homens a tocar aquela terra virgem traziam a ciência e o conhecimento mais avançados que tinham, mas, após centenas de anos, tudo havia se perdido. Tudo havia dado espaço às lendas, histórias orais e, principalmente, aos mitos. O mito foi mais poderoso do que qualquer conhecimento, ele o encobriu. Tornou-se o conhecimento em si, de si próprio. O princípio. Aquilo que esse povo temia expor e que queria ocultar.

O mito tem a poderosa capacidade de viver dentro dos homens e, quando vê uma oportunidade, quer sair para se firmar entre as leis que governam o mundo. E, por longos séculos ele governou. E os homens viveram à sombra dos mitos.

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...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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