16
ago
08

O trono da rainha

O velho padre aguardava para atravessar a rua. Já não tinha idade para arriscar um semáforo aberto. E, apesar do sol, pacientemente se apoiando em sua bengala, esperava o semáforo fechar para os carros. Dezenas de pessoas, muitas das quais já bastante atrasadas para começar seu dia, se acotovelavam, à espera do semáforo, disputando um pequeno espaço na faixa de pedestres. Costume pouco comum, mas as pessoas daquela cidade também já começavam a se habituar àquela regra. Claro que não sem exceção. Pois havia aqueles que corriam de um lado a outro da avenida, dentro e fora da faixa, arriscando-se no trânsito mais que caótico.

O padre olhava as pessoas, atrasadas, ocupadas, consultando relógios e celulares em busca das horas que corriam sem cessar. Se ao menos as pessoas almejassem o desenvolvimento espiritual tanto quanto almejam o material, pensava ele, terminando em reticências. Alguns retribuíam o olhar, outros até esboçavam um sorriso. Com o fim da espera, as pessoas se arremessaram sobre a faixa, como se fossem se atracar em uma batalha com os pedestres do outro lado da rua. Uns mais rápidos, outros mais devagar, alguns até distraídos com alguma leitura ou fone no ouvido. Todos atravessaram.

Calmamente, o sacerdote continuou em direção à sua paróquia. Era uma igreja pequena, de construção colonial, bastante antiga. Teria sido, possivelmente na época em que a cidade era apenas uma cidadezinha do interior, a catedral da região, quando a cidade era pequena, com apenas alguns milhares de habitantes. Hoje havia a basílica, enorme, de arquitetura contemporânea, para impressionar os milhões de habitantes da grande cidade.

A preferência do padre de cabelos brancos sempre tinha sido a sua “igrejinha”. Muito bonita e aconchegante, seu silêncio interior em meio ao barulho do cotidiano dava a ela o ar de um cantinho do Céu para os mortais. Ainda restavam duas quadras a serem transpostas antes de chegar na paróquia. No caminho, havia uma praça em forma de círculo, com fraca arborização, onde as pessoas vendiam artesanatos, conversavam, negociavam ou apenas observavam, sentadas em bancos recurvos de concreto.

Enquanto atravessava a praça, o padre foi abordado por uma senhora. Distraído como estava em seus pensamentos, não havia notado sua aproximação, até que ela chamou por ele.

— Padre. Padre!

Olhando para trás, o padre viu a mulher, vestida em saias longas e coloridas, com lenço na cabeça e uma enorme quantidade de pulseiras de argola, brincos e correntes. Era uma cigana. Como as tantas ciganas que abordam pessoas nos centros das cidades, garantindo-lhes a leitura da mão, o conhecimento do futuro, lá estava ela, pronta a praticar a arte da quiromancia. O padre parou e a encarou. Ele não era do tipo que negava um diálogo a ninguém. Olhou-a fixamente, até que ela ia começar a falar, mas ele a interrompeu.

— O que quer, filha? — perguntou ele, alceando uma das sobrancelhas.

— Posso ler a tua mão, padre? — ofereceu a velha cigana.

Ora! Tratava-se de um padre. E respondeu à altura de sua condição. Todo o poder das suas convicções cresceu dentro dele e ele falou:

— Filha. Eu creio que apenas Deus tenha conhecimento do futuro de qualquer ser humano.

— Mas, padre, me ouça — insistiu ela. — eu vejo um perigo na tua vida.

— Não, obrigado. Não quero que leia minha mão. Mas, se desejar, as portas da casa de Deus estarão abertas para a senhora, caso queira renegar tuas práticas pagãs e aceitar o Criador como única fonte de fé. Pode ir visitar a paróquia.

Ele parecia falar num misto de tranqüilidade e segurança, mas a velha foi tomada de um sentimento de raiva. Havia sido ofendida, ela, sua cultura e seus ancestrais.

— Padre! — o olhar da mulher pareceu se encher de escuridão, mesmo naquela manhã ensolarada. — Presta bem atenção seu padre descrente! Pois o que te digo me é revelado por alguém maior que eu ou você.

— Vá para casa, filha. Ore e procure a Deus.

— Não deboche de mim, padre! Teu futuro é este: morrerá sentado no trono da rainha.

O padre ignorou completamente a mulher, achando que ela já estava atraindo muita atenção. Virou-se e continuou andando, deixando para trás a cigana feiticeira que, apontando o dedo aos céus, gritava para ele. Por fim, chegou à sua paróquia, a salvo da loucura do mundo exterior. De volta em seus domínios, pôs-se a trabalhar nos afazeres do dia. Passou a manhã entrevistando noivos, ouvindo confissões e dedicando a hóstia para a próxima missa. Mas a todo instante não lhe saía da cabeça a figura da cigana. Até temia que ela entrasse pelos portais da igreja, bradando e causando transtorno nos fiéis ali compenetrados.

O dia passou sem nenhum problema complicado, e o padre, ao entardecer, se dedicou às suas orações. Ficou fechado em seus aposentos, rezando durante todo o resto do dia, desligando-se de buzinas, gritos e xingamentos do trânsito em torno da igreja.

Em determinado momento das suas orações, parou. Havia pensado na velha cigana. No que ela tinha lhe falado na praça. Era, de fato, uma abordagem ineficaz aquela da velha, até estúpida, podia-se dizer, pois viviam em um país que não era regido por uma rainha. Talvez em países de regime monárquico a mulher pudesse ter algum sucesso com seus sortilégios, mas mesmo assim, quem, senão a própria rainha, ousaria ocupar seu trono?

Resolveu apagar tudo aquilo da cabeça. Preencher a mente daquela forma era dar espaço a coisas inúteis. Antes de se retirar para dormir, foi à capela, executar a última tarefa do dia: trancar as portas e apagar as luzes. Era um recanto bonito, pouco freqüentado pelos fiéis, com chão todo em granito branco. Dois degraus elevavam o altar acima do restante da capela; era coberto por um granito amarelado, dando a impressão de ser mais velho que o piso da base. O padre passou pelos bancos enfileirados da capela, sob uma elevada abóbada, desenhada com temas religiosos e chegou até o interruptor. Desligou a luz principal, mergulhando o ambiente numa penumbra, e atravessou o altar em direção à porta.

O altar era decorado com uma grande mesa coberta com uma toalha branca, arranjos de trigo e flores, uma bíblia, um enorme candelabro de cinco velas e uma pequena campânula com quatro sinetas. Todos objetos usados em missa, mas ali, apenas decoração. Havia também uma grande escultura do Cristo crucificado, elevada, de frente para os bancos. Do lado esquerdo da imagem do Cristo, ficava a estátua de São José e, do lado direito, a imagem de Santa Maria, figuras paternais do cristianismo, representando o ideal de família para os fiéis católicos. Ambas as estátuas se encontravam presas à parede, ocupando a mesma altura da figura do Cristo.

O padre notou um tremor em suas mãos que aumentava a cada instante, seguido por uma dor no peito que parecia fluir para os membros. Estava começando a ter um ataque do coração. Tentou caminhar até a saída, mas não teve forças nas pernas. Tudo o que pôde pensar foi em agarrara a campânula e tocá-la até alguém vir ver o que era. Mas o velho padre também não teve condições de chegar até a mesa do altar. Um súbito lampejo veio em sua mente, trazendo a última frase da cigana. Um sorriso de escárnio lhe percorreu a face. “Enganada”, pensou ele em triunfo, querendo ignorar a morte iminente. Mas caiu sentado, com as mãos no coração, em uma grande cadeira acolchoada, um objeto de madeira bem trabalhada e ricamente ornamentada. Sobre a cadeira, uma inscrição numa placa também de madeira marcava o posto reservado. Bem abaixo da figura divinal de Santa Maria as seguintes palavras podiam ser lidas na placa: “Mãe Rainha”. Só ali, tudo se esclareceu diante dos olhos debilitados do velho padre. A sensação de triunfo desvanecera e suas forças se extinguiram. O fôlego da vida desapareceu, deixando para trás um corpo abandonado sobre o trono da rainha.

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….

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2 Responses to “O trono da rainha”


  1. setembro 28, 2008 às 9:06 pm

    E aí cara, tudo bem? Achei excelente o teu texto, prendeu minha atenção do inicio ao fim. O português também está muito bom, e a redação bem estruturada. Acho que não tenho muito o que falar a não ser que achei a narração envolvente. Boa sorte no mundo da escrita!

  2. outubro 18, 2008 às 8:09 pm

    Achei muito legal o “Trono da Rainha”…não poderia imaginar a morte que o padre teria! (no tal trono)
    Também gostei bastante do “Civilização”, faz pensar na origem da Terra…(risos)
    Agora estou a espera do acidente com a bicicleta….por isso me mande por e-mail quando tiver postado…ok?
    Bye


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...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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