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out
08

Ciclovia

Tinham construído na cidade uma nova ciclovia que atravessava boa parte da área urbana, facilitando um bocado a vida dos ciclistas.  E como a tendência era do número de ciclistas aumentar, havia planos para mais ciclovias na cidade. O movimento era intenso em quase toda a extensão da nova pista, mas em uns poucos pontos era até escasso. E à noite, esses pontos eram praticamente vazios, salvo alguns ciclistas noturnos que precisavam chegar ao trabalho ou voltar par casa.

Como era uma ciclovia recém construída, um dos pontos menos trafegados era exatamente onde ainda não havia sido colocado postes de iluminação. Isso causava uma sensação de insegurança nos ciclistas que precisavam passar por ali à noite. Tanto por medo de assaltos como de quedas. Nos dias de chuva esses pontos eram sabiamente evitados.

Numa noite de verão, de quinta-feira, um ciclista vinha cruzando a ciclovia voltando do seu trabalho. Tinha passado na namorada antes de ir pra casa, para pegar um livro emprestado. O fone do seu mp3 ocupava apenas um ouvido, deixando o outro livre para possíveis alertas no trajeto. Pedalando, com sua mochila nas costas, o rapaz atravessava a cidade. Seu nome era Jean. Sua mãe, professora de filosofia, num daqueles acessos de loucura derivados da ansiedade de se ter um filho pela primeira vez, o havia batizado de Jean em homenagem a Jean-Pierre Vernant, filósofo e mestre da mitologia.

O jovem vinha cruzando a ciclovia, uma hora rápido, outra hora mais devagar, mas desenvolvia uma velocidade razoável quando aconteceu seu acidente. Na parte escura da ciclovia, ele trafegava sozinho, nem bicicletas, nem carros, nem pessoas passavam ali por perto. Enquanto encarava uma descida, iluminada apenas pela fraca luz de uma lua ainda crescente, uma coisa atravessou a sua frente, um vulto pequeno, desequilibrando Jean e o jogando sobre um mato alto que tinha num terreno vazio. Foi uma queda considerável, que o fez rolar pelo matagal.

Até seu fone tinha saltado para fora do ouvido. Sorte não ter caído no asfalto da ciclovia, pois teria se ralado todo ou até se ferido de maneira mais séria. Entretanto, o mato também deixou sua marca em forma de cortes e arranhões pelos braços e pernas de Jean. Gemendo um pouco, praguejando e se levantando com a mão no joelho, Jean ouviu atrás dele uma voz um pouco estranha, rouca e fina, como de uma velhinha, perguntando:

— Oh, está tudo bem? Machucou-se?

No instante em que se virou para ver quem era, ainda com a cabeça rodando, não encontrou ninguém, apenas um bichinho sentado, observando calmamente. Era uma raposa do campo. Animal raro por ali. Raro, aliás, desde que o homem resolveu alterar todo o ecossistema da região. Ela olhava pra ele, e Jean, se sentindo um pouco incomodado, gritou:

— O quê? Fica aí parada só olhando a desgraça alheia!

Mas, percebendo que o animal insistia em permanecer observando, acalmou-se e voltou até onde estava caída a bicicleta. Olhou para os lados, procurando quem tinha falado com ele e, sem ver qualquer pessoa por ali, levantou a bicicleta. Pronto! O pneu estava furado. Um sentimento de frustração tomou conta de Jean, que soltou os braços, deixando a bicicleta cair novamente. Agora teria que voltar para casa a pé e, pior ainda, arrastando seu transporte até lá.

— O senhor está bem? Seu joelho parece estar um pouco dolorido.

Jean virou-se e olhou novamente, mas não encontrou ninguém, a não ser a pequena raposa do campo, sentada, assistindo curiosa a tudo.

— Ou você tá falando, ou eu bati forte com a cabeça, amiguinha!

— O que tem demais em falar? — retrucou a raposa. — Todo mundo fala!

O rapaz esfregou as mãos no rosto, não acreditando naquilo. A voz parecia vir da raposa e até a boca dela se mexia quando Jean ouvia a voz. Absurdo, ou dano sério na cabeça, só podia ser. Um pensamento estranho passou pela mente do rapaz: naquele momento podia até estar em coma, ou morto. Deus! Que sensação horrível o dominava agora.

— O senhor parece pálido! — comentou a raposa, quebrando a onda de tensão que envolvia Jean. — Tem um riacho aqui perto, se precisar pode ir lá tomar um pouco de água.

— Ahhhhnnn. Não pode ser. Você ta falando mesmo? Eu devo ter morrido, cadê meu corpo? Não o vejo em canto algum.

O animal arregalou os olhos, pasmo. Claro que estava falando, afinal, que animal não falava? Já estava ficando entediado com aquela insistência do humano num assunto tão imbecil.

— Teu corpo deve ter caído ali, perto do arbusto — brincou a raposa, apontando com o focinho. — O senhor quer parar de gastar meu tempo com essa coisa de “minha nossa, você fala?” —continuou, irritada. — E, antes que eu mude de idéia, em que posso te ajudar?

— Me desculpe dona raposa, mas eu nunca vi um animal falar. Você é a primeira.

— Primeiro.

— Quê?

— Primeiro! Eu sou macho, oras!

— Ah, certo, então!

Jean ainda não acreditava, mas continuou a conversa.

— É muito perigoso sair por aí atravessando na frente de quem está correndo, sabia?

— Verdade, mas também é perigoso sair correndo por aí, não acha?

— Então nós dois estamos errados?

— Na verdade você está mais errado.

— Ma… péra aí ô!

Ser acusado por uma raposa? Que negócio mais sem sentido. Mas Jean pensou que, por serem mais fracos e mais indefesos que os homens, os animais são as vítimas mesmo. Tudo parecia estar ficando muito estranho e fora do normal, de fato, pois, além da maluquice de conversar com animais, ele agora estava concordando com um. Devia estar morto mesmo!

— É, você tem razão, amiguinha.

— Amiguinho!

— O quê? Ah, verdade. Me desculpe.

— Pelo quê? Pelo atropelamento ou por me confundir com uma fêmea?

— Ah, qual é! Eu desviei de você. Por quê não volta pra sua toca?

— Estava indo pra lá, quando você apareceu — irritou-se a raposa do campo. — Sabia que antes de vocês derrubarem nossas árvores, em morava aqui, onde agora tem esse chão de pedra? Era uma árvore grande, cheia de folhas verdes, coisa linda. Com minha toca bem embaixo da sua raiz. Havia comida o bastante para todas as épocas do ano, havia muitos ninhos de aves, com seus ovinhos, pequenos animais e insetos para caçarmos. Era bom, mas vocês derrubaram tudo pra fazer essa tal de estrada! 

— Estamos trabalhando para evitar que isso aconteça em outros lugares! — respondeu Jean.

— Estamos? Quem? Estão nada! Cada vez mais humanos nascem, cada vez mais as cidades crescem. E nossas casas são destruídas para o homem plantar, construir, ganhar o mundo! Não é assim? — se indignou a pequena raposa. — Quem se importa?

— Eu me importo! Eu reciclo lixo, não ando de carro todos os dias. Não tenho uma penca de filhos!

— Nossa! Como você é engajado! — ironizou a raposa.

— Alguém já te disse que você é chata?

— Chato! Mas que saco!

— Chato. Isso. Mais uma vez, me desculpe — corrigiu Jean. — Será que posso passar a mão no teu pêlo?

— O quê? Como é que e? — espantou-se a raposa. — Mas que diabos!

— Ora, não se zangue! É que eu não sei como é o pêlo de uma raposa, só isso! Relaxa, não é nada demais.

— Tá certo — concordou a raposa. — Mas só um pouquinho. Nada de afagar demais. Eu sou macho, esqueceu?

Jean passou a mão na cabeça do animal e deslizou até as costas. A raposa também gostou do afago. O rapaz sorriu, num pensamento de que todos os homens podiam ser mais amigáveis com os animais. Podiam ser mais tolerantes, menos agressivos e mesquinhos. Esses pensamentos pareciam viajar pela mão do rapaz através dos pêlos da raposa, pois o bichinho também achava o mesmo.

— Agora chega, hein! — alertou a raposa. — Se meus amigos ou inimigos virem isso eu tô frito!

— Bem. Agora eu preciso ir embora. Está ficando tarde.

— Tem certeza que o senhor está bem?

— Sim, só tô com a perna doendo um pouco e uns cortes no braço, mas não é grave! Por que me chama de senhor?

— É uma maneira respeitosa e educada de falar com os outros! É o que nós queremos também.

— Não sou uma pessoa que desrespeita os animais. Mas acho que sei do quê você está falando.

— Até logo, rapaz.

— Até logo, amiguinho! Se me encontrar andando por aqui, me chame. A gente pode conversar mais.

Saíram um para cada lado. A raposinha do campo correu para o matagal e o rapaz, mancando um pouco, começou sua jornada a pé, de volta para casa, empurrando sua magrela. A noite avançava, trazendo consigo ares mais frescos. Solidão e silêncio acompanharam Jean pelo “caminho de pedra” construído onde era a casa da pequena raposa e de outros animais.

Ele jamais voltou a encontrar a raposa.

.

..

….

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1 Response to “Ciclovia”


  1. setembro 5, 2009 às 7:16 pm

    Eaí, Luciano!

    Muito boa essa história! Mesmo preferindo os Anerás, esses contos daqui são muito bons também! Criatividade elevada a sua, hein! hahaha…

    Parabéns! Curti esse Blog também!

    Abraços!


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...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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