08
jan
09

Voz digital

Cansado de tanta demora. Assim estava Caio no ponto de ônibus. Se tivesse ido a pé, provavelmente já teria chegado em casa. Aquela porcaria de transporte público só atrasava sua vida e as demoras eram quase regra na linha que ele usava. E agora, para piorar a situação, estava prestes a ocorrer mais uma daquelas sutilezas que só a lei de Murphy era capaz de explicar com clareza. Decidido a ouvir um pouco de música, o jovem colocou o fone de ouvido do seu mp3 player e ligou o minúsculo aparelho. Era um objeto fino, preto e prata, com uma capacidade invejável de armazenamento de arquivos. Só que a sorte de Caio parecia não ajudar, mal havia tocado a primeira música, a bateria deixou o aparelho na mão.

Tentou dar uns tapinhas e chacoalhar para ver se melhorava a situação, mas não parecia surtir efeito algum. Xingou o aparelho, chamando a atenção de outras pessoas que esperavam o ônibus no mesmo ponto. Era um palavrão meio exagerado para ofender um simples player de música!

Depois daquele dia abominável de trabalho, em que foi praticamente cozido vivo pelo chefe, só lhe restariam desventuras? Um suspiro abafado escapou de seus lábios. Era o final de um expediente massivo, cheio de pressão e cobranças, mas ele parecia resignado com a falta de sorte de uma única pessoa num mesmo dia. Se lembrou da frase de um amigo para quando alguém reclamava da própria sorte. Era algo mais ou menos assim: “Calma, que tem alguém lá fora se fudendo mais ainda!” Mas Caio acreditava que cada um tinha seus dramas particulares, independente de serem pequenos ou grandes comparados a infortúnios alheios. Para ele, se indignar pelo ônibus atrasado tinha tanto valor quanto se indignar por ser demitido, ou por descobrir que a namorada estava grávida, por exemplo. Coisas, aliás, que jamais deviam sofrer comparações, cada uma tinha seu motivo legítimo de ser detestada.

Andando pela calçada, se afastou um pouco das pessoas no ponto de ônibus até um local isolado, mas que ainda permitia ver a aproximação do transporte coletivo, e xingou novamente, enquanto chacoalhava para ver se a bateria reanimava. Agora parecia ter dado certo. Não graças ao xingamento, isso era óbvio, mas ele tinha se afastado do ponto de parada exclusivamente para xingar. Uma mensagem de inicialização apareceu na tela: “Wait…”, com seus três pontinhos de reticências piscando seqüencialmente, como se estivessem processando os arquivos a serem tocados. Finalmente iria ouvir o cd de covers do Placebo que tinha baixado no trabalho. Não era muito fã da banda, mas gostava do álbum de covers que tinham lançado.

De repente, Caio ouviu uma voz chegar aos seus ouvidos.

— Do que é que você me chamou, ordinário?

O rapaz olhou para os lados e para trás, achando que ia encontrar uma pessoa ofendida por pensar que o xingamento fosse dirigido a ela. Mas não tinha ninguém perto. Ele havia se afastado. Olhou para o ponto de ônibus, mas não viu ninguém se aproximando. Estranho. Quem teria dito aquela frase?

— Ô seu besta!!! Por que é que você foi me xingar, hein?

De novo! Mas quem podia ser? Caio olhou para o topo do muro alto de uma casa, atrás dele. Mas, nada encontrou. A situação estava ficando chata. Não queria ser surpreendido com um tapa na orelha dado por alguém muito puto. Perscrutou novamente todos os lados da calçada, e nada de encontrar uma pessoa por ali. Retirou o fone do ouvido direito, para ver se percebia melhor quem se incomodara com ele.

— Retardado! Eu to aqui em baixo, na sua mão!

Mas que diabos! A voz agora penetrava pelo ouvido que ainda permanecia com o fone. Olhou para o player, após notar que a voz era levemente distorcida, como se fosse um radialista falando. “Merda”, pensou Caio, “será que esse aparelho interfere em alguma rede de rádio? Impossível”. Mas como era possível explicar que seu tocador de música agora exibia na tela as palavras que tinha acabado de ouvir no fone esquerdo? Sua única reação foi soltar um quase inaudível e decididamente pausado “Mas o que é que ta rolando, hein?”

— Atenção, Caio, da Terra. Eu sou seu mp3 player. Fui abduzido por seres inteligentes de outro planeta! — foi a zombaria que ouviu.

Só podia ser sacanagem de algum maluco que ele conhecia.

— Quem é que ta invadindo a freqüência do meu aparelho? Se você pode me ouvir, cai fora, cacete!

— É óbvio que posso ter ouvir, otário. Eu to dentro do seu aparelho.

— Ah, mas isso é brincadeira, vou desligar.

Com uma leve pressão num botão, Caio desligou seu player de música. Mas o aparelhinho parecia persistente e voltou a funcionar outra vez. As pessoas que passavam, ocasionalmente, achavam que era um jovem com problemas mentais falando sozinho, outros imaginavam que Caio, por estar com apenas um dos fones no ouvido, devia estar conversando pelo celular. O som que veio em seguida explodiu no volume máximo do fone esquerdo. Caio deu um pulo, surpreso.

— Não adianta! Não adianta desligar, nem tentar.

— Mas que… — Caio começou, mas uma senhora passando o fez pensar duas vezes antes de proferir mais um palavrão desnecessário. — O que ta acontecendo?

O rapaz parecia perder o controle e já dava sinais de nervosismo, quando o aparelho voltou a falar com ele.

— Ei, fique calmo, não vou avacalhar seu aparelho, se bem que aqui só tem essa porcaria de Placebo e esse rock alternativo deprimente que você gosta.

— Por que você não vai encher o saco de quem tem tempo? — provocou Caio.

— Olha, não fique zangado comigo, eu gosto de ser brincalhão, de pregar peças, mas não sou mau sujeito. — respondeu a voz no rádio. — Veja, eu sou um espírito capaz de interferir em aparelhos eletrônicos. Quanto mais próximo da tecnologia digital, mais fácil é para mim, mas uns poucos de nós conseguem se manifestar até em uma bicicleta.

Caio fazia uma cara de “Ai, essa agora!”, quando a voz digital terminou o discurso. Tentou desligar, mas não conseguiu. O comando simplesmente não funcionou.

— Eu avisei que não adiantava querer desligar. — retornou a voz digital.

— Posso arrancar a pilha, se eu quiser. — devolveu o jovem, incrédulo por estar conversando com seu tocador mp3.

— Pode, mas não vai adiantar. Veja, esse é um daqueles raros momentos inexplicáveis que acontecem com pouquíssimas pessoas. Você foi premiado, é o seu encontro com o fantástico. E, quando tudo isso acabar, você vai dizer que quase acreditou em tudo. Que isso foi algum tipo de alucinação devido ao excesso de trabalho e toda aquela besteira.

— Droga. Você é tipo um fantasma na máquina? Fala logo o que você quer!

— Eu… fantasma na máquina? Ora, não me ofenda, rapaz! E não me venha com essa de Inteligência Artificial, pelo amor de Deus.

— Claro, certo, como você preferir.

— Veja, senhor Caio. Eu, como espírito, sei de coisas que estão acontecendo longe daqui, e de coisas que aconteceram há pouco. Pois outros como eu estão em contato comigo, como se fôssemos um correio ou algo assim.

— E? — Caio parecia impaciente e entediado.

— Bem, eu não achei muito justo você ficar aqui esperando o ônibus por tanto tempo, depois de um dia como o seu.

— E foi invadir meu player de música justamente pra ferrar tudo um pouco mais?

— Olha que não revelo a informação que você quer saber, hein! — o espírito zombava dele, fazendo uma voz fina.

— Ta, então o que é tão importante que eu saiba?

— Vou falar, mas depois quero ouvir um obrigado, combinado?

— Humffff…

— Combinado ou não?

— Ta bom, mas fala e desocupa meu tocador de música. Vai, anda logo.

— Há algumas quadras daqui, houve um acidente, fechando o trânsito. Seu ônibus não vem tão cedo.

Caio não podia acreditar. Além de ter ficado esperando, agora teria que ir embora andando! Quem quer que fosse que passava aquela informação, parecia ter razão. O fluxo de veículos na rua parecia estar abaixo do comum. Poucos carros paravam no semáforo próximo dali. Será que Caio podia acreditar naquilo? Por mais que uma pessoa tenha algum tipo de crença, como era o caso de Caio, é muito difícil acreditar que o mundo espiritual podia se conectar com o real. Por ser algo tão raro e estigmatizado, ganhava o infeliz aspecto de coisa sem importância, como se acreditar de fato fosse algo da boca para fora. Ou, como se não acreditar fosse um tipo de defesa contra picaretas e seus discursos religiosos sem sentido.

— O que é que te faz achar que eu vou acreditar em você? Como é que eu sei que você é um espírito mesmo? E, por que não to assustado? — perguntava Caio.

— Se não quiser acreditar, não precisa! Só vim te fazer um favor. Quanto ao medo, te garanto que se estivesse sozinho em casa, de madrugada, comigo por lá, derrubando objetos da estante, seria diferente. Você teria uma predisposição de espírito para aceitar o implausível. Aqui, cercado de gente, carros e maravilhas do mundo real, onde a mente está presa às coisas sólidas, o impacto não é tão grande.

— Certo, então devo ir embora a pé?

— Sim, mas não se esqueça de me agradecer.

— E nunca mais vou te encontrar, ou ouvir tua voz?

— Já está começando a ter saudades, é? Ora seu malandrinho!

— Ah, não enche.

— Me agradece, faz parte do acordo!

— Ta bom, se é tão importante pra você. Obrigado, então.

— Hummm?

— Obrigado, espírito, pela informação que me forneceu.

— Ah, melhorou. Não tem de quê. Estamos aí pra ajudar. Adeus.

— Adeus.

Caio não sabia se se sentia aliviado por estar livre do incômodo, ou chateado, por ter sido tão rude. Afinal, o espírito, se é que se tratava mesmo de um, só queria ajudar. Começou a longa caminhada que o levaria até em casa, reconhecendo que o espírito tinha mesmo lhe feito um favor. Atravessou a rua no semáforo e continuou numa subida pela calçada do quarteirão onde ficava o prédio em que trabalhava. Com o player agora ligado nos covers do Placebo, funcionando em plena capacidade, Caio voltou a se sentir menos azarado. Mas, num instante, viu passar por ele, cortando a avenida, o ônibus que devia ter acabado de sair do ponto onde estivera. Louco de raiva, o rapaz ouviu um risinho estridente se confundir com a música no tocador mp3 e, em seguida, uma única frase que o deixou fulo pelo resto da semana:

— Adoro pregar peças!

.

..

….

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2 Responses to “Voz digital”


  1. abril 13, 2009 às 2:46 pm

    gosto da maneira como escreve.

  2. agosto 20, 2009 às 12:49 pm

    Gostei do conto, e da sua paixão pela literatura fantástica. Isso é cada vez mais raro no Brasil…
    Topas fazer uma parceria de divulgação comigo?
    Abs e boa sorte com suas estórias!


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...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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