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Um dia de 30 horas

“… daremos um pulo a Júpiter. Estranho mundo esse. Os dias têm apenas nove horas e meia; numa palavra, um verdadeiro paraíso para os preguiçosos.”
— Julio Verne (Cinco semanas num balão).

 

 

Como uma imensa parcela da população humana que caminha neste mundo, Julius Jordan tinha problemas com o sono. É provável que jamais tenha existido uma única pessoa em toda a história da humanidade que, em algum momento da vida, não teve problemas de sono. Seria estresse, ansiedade, depressão, medo, preocupações pessoais? Inúmeros eram os motivos possíveis. Na época de Julius, existiam muitos estudos promissores e técnicas para combater o mal da insônia, que era a responsável por muitos dos problemas enfrentados num dia de trabalho, no casamento e no lazer, por exemplo. Era a vida moderna cobrando seu preço pelo progresso dos homens.

Julius Jordan, o homem comum do século 28 tinhas seus problemas com sono. Dormia pouco e tinha um agravante: o período de tempo entre acordar e sentir sono novamente era mais longo do que o dia conseguia abranger. Para explicar melhor, quando Julius dormia, podia embalar nove, dez horas sem acordar, mas, para voltar a ter sono, era preciso ficar acordado pelo menos 20 horas, ou até mais. Isso, para um homem que tem horários de trabalho regulares durante o dia, era um infortúnio. Foi por isso que, com a nova descoberta que faziam no momento, o sujeito ficou surpreso e, ao mesmo tempo, animado. Nunca tinha feito uma viagem espacial em toda sua vida, apesar de seus 48 anos. Era considerado jovem, já que no século 28 as pessoas viviam muito mais e com saúde em bom estado, graças aos avanços da medicina e da nano-robótica.

Não gostava muito de apelar para as drogas, nem para os micro-robôs geradores de impulsos elétricos causadores de sono, que estimulavam uma reação química para literalmente apagar o paciente. Julius achava que aquilo não era dormir, pois consistia em um sono artificial, forçado e sem sonhos. Era praticamente como se desligassem o cérebro por algumas horas. Julius já tinha experimentado, mas sem sucesso, pois sempre acordava cansado e indisposto. Ele acreditava definitivamente que era graças à ausência dos sonhos.

Taxada como um problema que vinha se arrastando através dos séculos, importunando a existência humana, a insônia teve várias explicações em diferentes épocas da história, mas tais curiosidades soavam indiferentes ao homem em questão. Seu único desejo era dormir, ter sono regular, prazeroso e revigorante. Ao ver o noticiário em seu palmfone, tratou logo de entrar em contato com um escritório da agência espacial do seu país. A questão que agitava o velho Julius Jordan era a nova descoberta de um planeta habitável fora de nossa galáxia. O governo, ao anunciar a descoberta, também recrutava voluntários para a colonização imediata e pesquisa do novo habitat, com vistas a expandir a atuação da humanidade no espaço e suas chances de colonização. O número de recrutas a ocupar o novo planeta ultrapassava a casa dos 50 mil, portanto Julius tinha grandes chances de embarcar nessa viagem interestelar. Graças a um avanço científico do século 26, que concretizou uma antiga teoria de de abrir “portais” através do espaço, o homem agora desbravava o universo mais facilmente do que em qualquer outra época anterior. E foi numa dessas expedições que encontraram o tal planeta com atmosfera habitável, num setor muito distante, mas ainda dentro da nossa galáxia.

As normas da agência do governo estabeleciam que os voluntários deviam ter entre 22 e 60 anos, faixa etária economicamente ativa e com maiores capacidades de resistência imunológica a agentes infecciosos.

Mas qual o atrativo de uma mudança tão drástica de vida para um homem comum da Terra? O quê movia os passos de Julius ao se candidatar voluntário nessa expedição rumo ao desconhecido? Afinal, era um novo planeta, completamente selvagem, com um ecossistema totalmente desconhecido e provavelmente hostil, onde se formariam colônias da Terra trabalhando para descobrir e povoar, coletando e enviando informações periodicamente à agências espaciais em todo o mundo, com fins de pesquisa tecnológica, mapeamento e registro de fontes energéticas e recursos materiais.

Aparentemente, o que impulsionava Julius a embarcar numa empreitada tão aventuresca como esta era um simples detalhe: a rotação do recém-descoberto planeta em seu eixo durava 30 horas terrestres. Isso significava para Julius um dia e uma noite de 15 horas aproximadas para cada período. E, dependendo de onde seria instalada a base, o tempo de duração do dia podia ser superior ao da noite. Foi aí que finalmente Julius começou a vislumbrar a oportunidade de conseguir dormir suas oito ou dez horas diárias se adaptando ao ciclo daquele planeta. Melhor seria para ele ter um tempo mais espaçado entre os sonos, do que o ritmo habitual das 24 horas da Terra. Seria seu paraíso.

Antes do dia terminar, Julius já tinha deixado sua casa e comparecido a uma agência de recrutamento, se candidatando e apresentando um relatório de suas habilidades e conhecimentos, ciente de que certamente precisariam de um geógrafo qualificado nessa expedição exploratória. Oito horas de sono seria uma dádiva, podendo ficar acor dado 22 horas por dia, sem prejudicar seu rendimento profissional. Podia ser, finalmente, a solução para as noites do senhor Julius Jordan.

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3 Responses to “Um dia de 30 horas”


  1. setembro 14, 2009 às 10:22 am

    E aí, Luciano! Desbrvando a ficcção cientíofica, hein, amigo!
    Gostei bastante, a questão da insônia serviu perfeitamente para justificar a ida de James para o outro planeta.
    Talvez fosse legal ver James conhecendo o novo planeta., em um conto posterior.
    Obrigado pela visita lá no Museu.
    Um grande abraço!
    Ah, tentei colocar o banner do ficção fantástica lá no Museu e nas Terras, mas não sei porque sempre acontece um erro!

  2. setembro 16, 2009 às 6:04 pm

    Muito legal, gostei bastante. Fiquei curioso para ler as outras. Vou acompanhar. Abraço!

  3. julho 31, 2010 às 1:04 am

    Muito legal seu blog, vou passar mais vezes agora…..

    dá uma passada no meu
    http://otaviomsilva.blogspot.com/
    e/ou nesse q participo
    http://mundo-leitor.blogspot.com/

    Forte abraço.


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...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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