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nov
10

O “Deus me livre”

Uma terra distante, um homem rico, fazendeiro, proprietário de uma vastidão de terra e de algumas centenas de cabeças de gado. Enfim, um homem de muita sorte, mas tudo que conquistara na vida perdeu-se. Esta é sua história.

Aparentemente, tudo teve início num dia de ventos de outono quando, enquanto caminhava pela propriedade e um capataz veio lhe falar sobre algumas vacas que haviam adoecido junto com os bezerros. Imediatamente foram separadas do restante do rebanho, mas a doença atingiu ainda outros animais. E por mais que separassem os animais, tentando isolar a doença, outros adoeciam do mesmo mal. Certa noite, sentado à mesa para o jantar, o dito fazendeiro comentou o fato com a esposa e descreveu a situação toda, de maneira detalhada, para que ela pudesse entender o que acontecia. A mulher, bastante sábia, tentava encorajá-lo com palavras de conforto e sua energia positiva: “Calma”, dizia ela, “Deus está cuidando e providenciando o necessário”. Mas ele, ignorando o alento da esposa, afundado que estava em seus problemas, se via incapaz de apelar ao ânimo de continuar batalhando. Todas as noites, da sua varanda, enquanto ponderava sobre a doença do gado, sua cabeça era povoada de pensamentos negativos ecoando frases como “Deus me livre dessas vacas doentes”, ou “esses animais ainda vão me dar muito prejuízo, Deus que me livre!” E assim era aquele homem em seu íntimo.

Outro dia, ao acordar de manhã, recebeu a notícia de que os animais oentes haviam sido encontrados mortos e, segundo seu veterinário, os exames de laboratório nada indicavam como causa da morte. Foi quando comentou alto, no meio dos peões da fazenda:

— Esse negócio de criar animais só dá trabalho! Eu hein! Deus me livre dessa porra!

— Sinhôr num deve falá assim, não — comentou um dos matutos, funcionário de longa data, capataz da fazenda. Um velho supersticioso e reservado. — Vai que Deus te livra memo.

— Tomara — respondeu o fazendeiro.

Mas diante daquilo, se lembrou de um sermão ouvido há muito tempo numa missa dominical na cidade próxima, onde o padre citava uma passagem de Jó, cujo conteúdo ele levava na memória: “Tal é o destino de quem se esquece de Deus…” Essas palavras o marcaram de tal forma, numa época em que era homem religioso e de fé, que fez questão de memorizá-las, apesar de não se lembrar do capítulo onde este trecho se encontrava. Sabia, entretanto, ser de um trecho a respeito do homem perder a fé, ou não ser justo com sua própria esperança*. Mas ele balançou a cabeça negativamente e continuou o dia, trabalhando com a peonada na fazenda.

A cada dia que passava, os animais morriam aos poucos e aos poucos aumentavam as dívidas do fazendeiro. Os dias se arrastaram daquela forma por um longo tempo, até que o governo resolveu tomar metade das terras como pagamento da alta dívida acumulada pelo proprietário. É impossível negar que, apesar de o prejuízo ter sido considerável, houve certamente um período de calmaria, onde todos acreditavam que a fazenda voltaria a produzir e vender. O homem de sorte tinha bons funcionários na fazenda e, sempre que podia, passava horas com eles, tratando dos cuidados relativos aos animais, proseando ou tomando uma pinga no fim do dia. Mas a crise fora tão pesada que um dia, descontentes por não receberem pagamento há algum tempo, os funcionários se reuniram com o capataz e reclamaram do patrão não lhes pagar o justo por cuidarem da propriedade. Quando o capataz foi relatar ao fazendeiro o que os funcionários reivindicavam, o homem só reclamava.

— Gente preguiçosa essa! Deus me livre desses vagabundos! — começou ele. — Bando de traíras. Quando estão comigo, me tratam bem, com respeito, mas é só eu virar as costas que começam a maquinar contra mim? Não vão receber nenhum centavo a mais.

O velho capataz tentou novamente prolongar o assunto que já começava a incomodá-lo.

— Patrãozin. O sinhôr divia tê mais fé nas coisa de Deus.

“Vamos trabalhar que a gente ganha mais” foi o que obteve como resposta. Meses depois quase todos os peões da fazenda haviam deixado o trabalho e migrado para outras propriedades. Agora, com exceção do fiel capataz, só viviam ali funcionários displicentes e pouco preparados para cuidar dos animais, apenas interessados em receber o salário fácil. A partir desse momento, a produção só veio a cair. O capataz, cuja superstição ultrapassava a fé de qualquer padre nas forças divinas, começava a entender a relação entre o que o patrão dizia e o que vinha ocorrendo na fazenda. Inúmeras vezes tentou abordar o assunto com o fazendeiro, sempre sendo rechaçado com um grau de ignorância além da conta. Mas toda paciência se esgota e, depois de tanto insistir em alertar o homem, o velho deixou o trabalho na fazenda e se afastou do patrão.

A esposa, indignada ao ver aquilo, foi procurar uma satisfação com o marido, pois estimava o velho como a um pai e sabia o quanto ele era importante ali. E, apesar de tentar ser educada, também foi alvo da grosseria do marido.

Diante de tal situação, ela se viu obrigada a esperar algum tempo para contar uma novidade ao fazendeiro. E só quando ela percebeu que ele parecia estar num dia razoável, é que teve coragem de lhe contar a novidade que tanto a animava. Estava grávida. Com todos os problemas que rodeavam a fazenda, porém, o homem não conseguiu se sentir de algum modo abençoado com aquilo e passou muitos dias murmurando a si mesmo pelos corredores da casa:

— Uma criança, Ah meu Deus. Por que agora? — dizia sozinho. — Deus me livre! Como vou sustentar esse bebê?

Vez ou outra a esposa ouvia os murmúrios pelos corredores e, como se tomada por uma força misteriosa, entrou em depressão. A gravidez não durou três meses. O homem agora vivia mais dentro de casa do que cuidando das terras e sempre lamentava seu infortúnio, sua vida difícil. Cada situação que lhe surgia, era rebatida com um “Deus me livre disso” ou “Deus me livre daquilo”. Acostumou a proferir diariamente essas palavras sem cuidado algum. A mulher, com a perda do bebê e depressão, não comia, não saía de casa, não falava com ninguém. Se comportava como um zumbi sem vontade própria. Os médicos que a visitavam na fazenda não conseguiam identificar o que ela tinha e davam o diagnostico final de depressão. O fazendeiro, não poupando esforços para ver a esposa melhorar, gastava muito com remédios e consultas caras, sem obter resultados promissores.

— Minha fazenda afundando em dívidas e agora a minha mulher doente, fraca e sem vontade para nada. Ah, Deus! Mas que merda tá minha vida. Deus me livre! O que foi que fiz para merecer isso? — dizia consigo mesmo. — Que situação mais humilhante para um homem como eu!

Seis meses de doença e tristeza atacaram a mulher, até que ela não resistiu. Ao velório compareceram apenas os familiares mais íntimos, o velho capataz e alguns trabalhadores da fazenda. O fazendeiro sentado num canto, desolado e abatido com a onda de acontecimentos desafortunados, contemplava o corpo da mulher, enquanto se perguntava “O que fiz a Deus para merecer tanta má sorte?”. O velho capataz, vendo a que ponto chegara a vida daquele homem, voltou a frequentar a fazenda, ajudando o patrão como podia.

Apesar da boa vontade do velho, o patrão o expulsou numa manhã em que ele terminava de consertar uma cerca e as últimas palavras que ouvira do fazendeiro foram “Desapareçam você e suas superstições bestas!” O homem chegou a agredir o pobre capataz antes de enxotá-lo para fora da propriedade, pois, ainda que estivesse passando por uma derrocada na vida, ele sentia soberba e, no seu entender, era superior a qualquer pessoa. Mas a vida tem como recompensar a quem merece e também tirar a paga de quem não faz jus a ela.

Durante meses o fazendeiro não pôde trabalhar, pois suas forças haviam sido drenadas de tal maneira que por dias a fio mal tinha condições de se levantar da cama de manhã. E raramente o fazia. Após um tempo, a fazenda veio a fechar as porteiras, o ínfimo restolho de gado foi vendido e os funcionários remanescentes foram dispensados sem receber o devido acerto. Quem passasse pela região, podia ver ao longe uma terra abandonada, onde mato crescia por todos os lados e o abandono mostrava sua terrível face em cada lugar em que antes florescia vida em atividade constante, com o movimento de pessoas e animais de um canto a outro. Agora os únicos animais que rondavam a casa eram cobras, morcegos e ratos.

O homem reclamava diariamente, em tom bastante alto, mesmo que para ninguém escutar. “Essa porcaria de fazenda não me serviu pra nada nessa vida! Deus me livre! Deus me livre! Onde foi que eu errei? Deus me livre dessa merda de lugar!” Os dias passavam e a fazenda, que já não tinha mais cara de fazenda, só piorava, desaparecendo no meio do mato, quase já cobrindo a casa. Essa situação perdurou até que o fazendeiro, sem dinheiro até para comer, se viu obrigado a vender sua propriedade para quitar mais dívidas contraídas com o governo e os bancos.

Depois que os credores vieram tomar a propriedade, ele caiu por si e sua consciência o transportou para as palavras do seu capataz. Será que agora ele finalmente entendia o que o velho queria dizer? Será que ele havia definitivamente entendido o alerta? Mas agora era tarde demais. Tinha ficado sem nada, sem terras, sem dinheiro, sem sua amada esposa. Tudo havia desaparecido como se fosse uma maldição ou algo assim. No fim das contas a dívida remanescente era tão exorbitante que ficou sem nada, transformando-se em um mendigo sujo qualquer, numa praça da cidade e terminando sua vida perambulando sem rumo pelas ruas. Mas dívida maior era a que tinha consigo mesmo, com a vida e com o Deus que ele abandonara. E só agora ele entendia isso. Mais um motivo para se autoflagelar pelo resto de sua apagada existência.

Nas ruas e nas praças da cidade, quem cruzava com ele via um arremedo de homem, em trapos, enrolado num cobertor sujo, enquanto sussurrava baixinho, sem parar, “Deus me livre! Deus me livre”, como se estivesse entoando um ritual ou oração, ao mesmo tempo em que fazia o sinal da cruz repetidas vezes. E foi desta forma que ficou irremediavelmente conhecido nas redondezas pela alcunha de Deus me livre. E todos sabiam que aquele homem fora outrora um fazendeiro importante da região. Um homem em quem agora as crianças atiravam pedras e gritavam “ô, Deus me livre”, “vai embora, Deus me livre”. Assim terminaram os amargos dias do outrora fazendeiro, reduzido a nada, graças ao poder da palavra.

.

..

….

* Livro de Jó, capítulo 8.

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3 Responses to “O “Deus me livre””


  1. fevereiro 14, 2011 às 5:37 pm

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...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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