23
dez
10

La Nuit de Noël

Gèrard havia bebido um pouco além da conta e já estava acostumado a se virar em tal estado. Exagerar era com ele mesmo. Mas, com o julgamento demasiado comprometido, ainda se achava apto a dirigir. Ao menos acreditava nisso, pobre coitado. Não fora pego por nenhum policial trafegando bêbado, pois na noite em questão não havia ronda como de costume. É verdade que tentou umas quatro vezes, antes de acertar o buraco da chave na porta do velho Peugeot. Deu a partida, ligou o aquecedor, pois fazia 4 graus negativos, e ligou o rádio, para ouvir suas canções francesas de amor.

Desnorteado, cantarolava enquanto atravessava as ruas escuras de um bairro de Toulousse, indo rumo a Saint-Orens-de-Gameville, onde morava. O excesso de malbec na corrente sanguínea o aquecia melhor do que o aquecedor do automóvel, que, aliás, fedia a plástico queimado. Mas há que se compreender que era um carro velho, tinha lá suas peculiaridades. Um pouco de neve começara a cair e Gèrard acelerou, na ânsia de estar em casa antes da neve aumentar de intensidade. Sim, ele acelerou, em pista molhada e com neve começando a atrapalhar a visão. Francês malandro que era, seguiu por uma rua pouco movimentada e de iluminação escassa. Era como um atalho para ele.

Para o azar de Gèrard, ou do resto da população de crianças em todo o planeta pelo resto dos dias do mundo, um trecho da rua tinha a iluminação danificada. Nesse momento, seu rádio tocava a exuberante voz de Piaf cantando Non, Je ne regrette rien. A neve batia um pouco mais forte em seu para-brisas, e ele não viu o outro veículo cruzar a rua. O Peugeot acertou em cheio o trenó vermelho que cortava a ruela no início daquela fria madrugada natalina que precedia o amanhecer de um 25 de dezembro. Renas foram arrastadas pelo asfalto, enquanto um senhor de idade, rechonchudo e vestindo casaco vermelho, veio a se chocar contra o para-brisas, espalhando vidro estilhaçado e um pouco de sangue dentro do automóvel. O velho rolou sobre o teto do carro e caiu no chão. Fiapos de barba branca ficaram enroscadas no que sobrou do para-brisas.

Extremamente chocado e quase fora de controle, Gèrard saiu do carro com a intenção de ver se o senhor de idade havia sobrevivido. O vento gelado castigava as costas de Gèrard, enquanto ele tentava manter o velho consciente. Levava as mãos à cabeça, gritava por socorro, mas a rua deserta pouco tinha a oferecer. O velho, porém, não resistiu. Morreu estirado no asfalto gelado, a cabeça rachada e o rosto coberto de sangue. As renas, pensava o francês embriagado, certamente deveriam ser sacrificadas na manhã seguinte, devido às fraturas. Não pôde imaginar o porquê de ter pensado isso na ocasião, bem achou que fosse coisa do malbec.

Mas, de repente, como se para aterrorizar Gèrard e seu coração deveras humano, um chiado crescente e constante cortou a escuridão gelada e ele pôde ver, incrédulo, o corpo do velho murchar até virar cinzas. O mesmo ocorreu com as renas, as roupas vermelhas e o trenó diante dos olhos estupefatos do motorista embriagado. E, naquele instante, Gèrard acabara de conceber a dimensão do dano que causara a toda a humanidade: havia matado le Père Noël, o Bom Velhinho, mais conhecido por nós como Papai Noel.

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2 Responses to “La Nuit de Noël”


  1. dezembro 29, 2010 às 11:05 am

    Cara, está parecendo uma mistura de Horácio Quiroga com Edgar Allan Poe. Leia Quiroga, o estilo dele é bem parecido com o teu.

  2. janeiro 24, 2011 às 1:46 pm

    Adorei, ótima escolha de espaço e descrições, aliado com um enredo incrível.
    Parabéns você escreve muito bem.


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...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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