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Meu filho não serve para comandar

 Magnífica até na hora do parto, a senhora elfa da casta guerreira de Aedorath mantinha a compostura diante da dor e das contrações. Seu primeiro rebento estava prestes a nascer. Do lado de fora da antiga mansão na floresta profunda, cercada de árvores milenares, cujas histórias se confundem com a dos elfos, estava o pai, Lorde Aedor III, afundado em preocupações triviais concernentes a todo pai de primeira viagem. Horas se passaram até que se ouviu o feliz choro do bebê elfo, filho do mais nobre homem da casta guerreira.

Pouco depois, Aedor se impacientava na sala ao lado dos aposentos de sua senhora, mãe do pequeno Eydian. O nome tinha sido escolhido pelo pai, meses antes, para honrar o bisavô da criança, um grande combatente que perdeu a vida na defesa do território contra as hordas de goblins saqueadores. O velho Eydian caçava como nenhum elfo jamais caçou, e trazia cabeças e mais cabeças de goblins para serem queimadas numa enorme fogueira no centro da vila élfica.

Pode parecer estranho tal comportamento para os elfos, mas essa era uma variedade incomum de elfo que cultivava em seu interior o que chamavam de “honra da espada”. E muitos deles superavam os mais lendários guerreiros humanos em feitos e conquistas.

Mas o que dizer do pequeno Eydian? Quando seu pai o viu, pareceu morrer em decepção. Era uma criaturinha miúda, até mesmo para os padrões dos elfos, quase puro osso e pele, e tão leve quanto um filhote de cachorro. Mirrado.

Apesar de ver o que não queria, Lorde Aedor seguiu determinado a transformar o filho em um guerreiro para o substituir no comando da casta. Mas, à medida que crescia, o pequenino começava a se interessar por histórias de magos, contadas pelos velhos anciãos da vila, e achava que com a magia, poderia se tornar tão forte quanto os guerreiros, e dar orgulho ao seu poderoso pai.

Sua mãe, a senhora Enora, o tempo todo o vigiava, e o seguia para onde quer que fosse, nas brincadeiras, nos estudos e nos treinos de luta, de onde saía mais machucado do que proficiente.

Chamava a atenção dos demais o menino não se referir à senhora Enora como mãe, mas apenas como Enora, ou, em situações sociais, como senhora.

Ao passar pela adolescência, Eydian sentiu-se mais e mais humilhado e abandonado pelos cantos da mansão. Seu pai pouco dava atenção a ele e culpava a mãe pelo garoto nascer fraco e magro, exigindo que ela lhe desse um filho capaz de reinar em seu lugar. Isso significava que, apesar de Eydian ser o primogênito, seu pai provavelmente daria um jeito de tirar seu direito à senhor da casta de Aedorath para passá-lo a um segundo filho. Definitivamente não gostava do jovem elfo.

— Ele é incapaz de sustentar o próprio peso — dizia o pai, — quanto mais lutar em uma batalha ou comandar meus exércitos. Meu filho não serve para comandar.

A mãe ouvia calada, ora chorando, ora envolvendo o menino nos braços, como se o protegesse do próprio pai, ora tapando os ouvidos do pequeno para não magoá-lo. Mas o menino ouvia sempre.

Quando Lorde Aedor viu que não havia solução para o crescimento frágil do garoto, tomou uma decisão que a maioria dos guerreiros consideraria bastante sensata, mas que a senhora Enora chamou de monstruosidade. Mas ela nada soube até que tudo estivesse consumado.

Numa comitiva de mercadores, o Lorde enviou o garoto para a cidade dos homens, aos cuidados de um velho e poderoso mago, seu amigo de aventuras em outros tempos. Tudo havia sido planejado sem levantar qualquer suspeita. Os mercadores da comitiva foram comprados pelos seus preços, para ficarem calados e executarem o plano do senhor de Aedorah.

Numa tarde de outono as engrenagens da intolerância de um pai pelo seu filho foram postas em movimento. Derrubado por um encantamento, o jovem só foi acordar na cidade dos homens, nos aposentos frios de uma torre estranha, cercado de velhos livros e na companhia de um velho homem.

Nos primeiros dias, chorava e gritava que queria voltar, que queria fugir. Mas com o passar do tempo foi se acomodando à situação.

O humano de idade avançada, ostentava um vigor incomum para a idade e Eydian pensava que se fosse a metade do que aquele homem era, talvez seu pai não o banisse secretamente de sua terra natal. Sob a tutela desse misterioso velho forte e grande, Eydian começou a conhecer o caminho da magia e determinou a si próprio que aquilo seria a “honra da magia” e que a honra da espada ali não tinha vez.

Estudava ferozmente cada manuscrito e tomo colocado diante dele durante os anos e o velho achava isso muito proveitoso, pois já havia tentado ter um aprendiz, mas os que precederam o pequeno Eydian eram mais estúpidos que cavalos e nada serviam para a magia. E o rapaz tinha algo que chamava a atenção. Parecia entender a magia, parecia capaz de interpretar os livros de forma correta e guardar a informação.

E assim o jovem Eydian cresceu, não a ponto de se tornar um elfo do porte dos guerreiros de seu pai, mas ainda um elfo de estatura mediana, apesar de magro e fraco. Existiam dias em que quase agradecia ao pai por tê-lo enviado para viver com um mago, mas se lembrava da senhora Enora, e esse minúsculo sinal de gratidão se evaporava sem mesmo ter a chance de se firmar em sua mente.

Sempre que se lembrava do quanto sua experiência de criança o traumatizara, murmurava para si mesmo:

— Não desejo ser senhor de nada. Só anseio a magia.

O abandono na infância deixou profundas marcas, e o jovem se tornou bastante tímido e incapaz de se impor em situações de disputas e divergências. As duras palavras do pai ecoavam em sua memória: “meu filho não serve para comandar”. E, sempre que elas voltavam para assombrá-lo, buscava conforto no estudo da magia. Tudo o que interessava a ele era estudar, se aventurar um dia e buscar poder e conhecimento mágico. Apesar da vida de um elfo poder durar séculos, o jovem desejava jamais pisar em solo aedorathiano novamente enquanto seu pai vivesse, ainda que a saudade daquela mulher o fizesse sofrer dia após dia. A mulher a quem Eydian, no dia de seu rapto, chamou pela primeira vez de mãe.

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4 Responses to “Meu filho não serve para comandar”


  1. maio 20, 2012 às 6:23 pm

    Uma narrativa bem escrita, cheia de encantos e frases ótimas como essa: “Numa tarde de outono as engrenagens da intolerância de um pai pelo seu filho foram postas em movimento.” Gostei da trama, das descrições, dos nomes dos personagens…fiquei com pena de Eydian e ao mesmo tempo querendo saber mais. Muito boa história, Luciano. Terá continuação?

  2. junho 27, 2012 às 10:41 am

    Vim aqui fazer a mesma pergunta sobre a continuação, mas já encontrei a resposta. Que ótimo!


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...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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