18
jul
14

Laura e os relâmpagos

Laura veio para perto de onde eu estava, se sentou do meu lado na grama e, no alto de sua inocência, me perguntou “tio, o que é aquilo no céu?” Assim começa nossa história, com uma pergunta simples, de criança. Muito curiosa para saber o que eram os relâmpagos ininterruptos que rasgavam o céu escuro. Pensei em dar a resposta simples, direta e real, mas ela queria algo mais. Acho que era atenção, ficar um pouquinho ali, ouvindo, falando, descobrindo coisas interessantes, como se fosse gente grande num diálogo importante. Foi por isso que inventei uma história e também para aproveitar um pouco o momento. “É relâmpago”, falei, interessado em saber onde ela iria com aquilo.

“E o relâmpago é o que?”, disse ela bem curiosa, agarrando a manga da minha camisa. Aquela menininha queria uma resposta séria e acho que foi o que dei a ela. Peguei a pequena no colo e falei “você não conhece a história do mago e do dragão que vivem nas nuvens? Nossa tenho até medo de contar”, emendei pra impressionar. A pequena estalou os olhos, como se quisesse com esse gesto revelar seu espanto. Engraçado como criança se surpreende e se assusta fácil. Peguei-a no colo e continuei a contar a história, garantindo a ela que não havia perigo, pois era uma batalha que ocorria há muitos anos e sempre a tempestade acabava passando. “Então, lá no alto mora um mago num castelo enorme, cheio de torres e portões de ferro, que fica em cima de uma nuvem. E ele vive viajando com o castelo pelos céus à procura do dragão. Ou será o dragão que vive à procura do mago?” ela pareceu tentar assimilar a dúvida que eu transmitia fingindo preocupação enquanto olhava para as nuvens distantes. “Bem”, continuei, “acho que os dois ficam procurando um ao outro, pra no final, travar uma batalha nos céus e o resultado é esse que você vê: muitos relâmpagos, trovoadas e a chuva”. “E o dragão morre?”, engatou ela.

“É uma luta feroz, a mais feroz que alguém possa imaginar, mas não precisa se preocupar com o dragão, pois se ele tivesse vencido, acho que teria acabado com as cidades todas que existem por aí. E você pode ver que ainda estamos vivendo aqui e nenhum dragão destruiu nossa cidade”. Ia concluir a história assim mesmo, mas ela perguntava coisa atrás de coisa, curiosa que só ela. Perguntou por que isso acontecia, quantas vezes acontecia por mês, por ano, essas questões infantis. “Por que o dragão quer matar o mago?”, sua voz fina saía pausada, ela tomava fôlego entre as palavras. “Acho que não sei te responder essa, mas sei que toda vez que chove é assim. Um monte de nuvens se juntam porque o dragão solta tanta fumaça que cobre o mundo inteiro. E aí o mago o encontra e os dois começam a lutar. É por isso que você vê relâmpagos, que são os poderes que o mago tem pra lutar contra o dragão malvado e fumacento”.

“Todas aquelas luzes, todo aquele barulho. O mago de um lado soltando descargas e mais descargas de relâmpagos em cima do dragão que ataca o velho com baforadas de fogo e fumaça, tentando feri-lo e cegá-lo”, continuei. “É estranho, pois tem vezes em que a luta dura um tempão e tem os dias em que a tempestade e a chuva vêm e vão rapidinho. Acho que quando é assim, eles brigam só um pouquinho e vão embora, chateados ou machucados, cada um pro seu canto, entende?”.

“O dragão é bonito, tio? É igual o do filme?”

O que se pode responder a uma pergunta dessas? “Nunca vi o dragão nem o mago”, falei “só sei dessa história, porque me contaram assim. Acho que o dragão é malvado e feio, se quer saber minha opinião. E quer devorar todos nós, pois vive sempre com fome”. Vi que ela ficou assustada e tentei corrigir. “Só que o mago sempre vence, não te disse antes? Não precisa se preocupar, ainda estamos vivos, olha só”. “Ainda bem, tio!” ela soltou, aliviada.

Nesse ponto Laura me perguntou por que chovia se o mago ganhava a luta e por quê o mago não limpava o céu com o poder dele. “Acho que é porque o mago não tem esse poder de limpar o céu de tanta fumaça, e a chuva é porque o mago usa um poder de água pra lutar contra o dragão, daí essa água espirra pra todo lado e vira chuva, entendeu?” ela fez que sim com a cabeça, mas eu sabia que ela tentava imaginar toda a cena fabulosa. “logo mais vai chover, mas não se preocupe, tá bem? O mago ganha do dragão, pois é mais esperto”. Ela devolveu “ele é bonzinho, então?”

“Acho que sim, porque senão, não ajudaria a gente toda vez que o dragão viesse”. “É o Papai do Céu que pede pra ele ajudar a gente?”, ela quis saber. Soltei um “acho que sim” meio despreocupado e instantes depois ela continuou “tô com medo, tio”.

Disse a ela para não ficar assustada, pois estaríamos lá pra cuidar dela até ela crescer.

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UMA FICÇÃO

...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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- CONTOS FANTÁSTICOS DO SÉCULO XIX (Ítalo Calvino)

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