21
ago
16

ouro olímpico

Assim como muitas pessoas que conheço, detesto futebol. Não acompanho, não me interesso por campeonatos nacionais, nem sei a escalação atual do Palmeiras ou do LEC. Suspeito que jamais vou querer saber. Para dizer a verdade, muito dessa repulsa se deu graças a um fator que passa distante do passional, sendo antes de cunho irracional: torcedores e suas reações. É uma grande enxurrada de merda que acompanha o mais intenso esporte nacional. Não devia, mas é. Ânimos exaltados, brigas, acidentes de trânsito, fogos de artifícios, gritaria desenfreada, enfim. O futebol é um grande bolo com todos os ingredientes capazes de me afastar do intento de acompanhar uma partida. Mas lá estava eu…

Brasil e Alemanha, com direito a prorrogação e pênaltis. Na prorrogação, todo mundo saiu da sala, menos eu e meu velho. Dividimos a ansiedade, a expectativa, cada cobrança dos jogadores, cada gol convertido, cada goleiro dando seu melhor. Tudo isso diante de uma simples TV velha, de tubo, que falhava algumas vezes no meio daquela chuva com raios que caía na cidade. Ninguém queria ficar ali com a gente, mas nós ficamos.

Lá estava eu, dividindo esse momento com meu pai, um sujeito que, em sua perspicácia típica de torcedor, de quem sempre sabe do que está falando, no começo dos jogos disse: “fica todo mundo falando mal desse técnico, ele ainda vai ganhar essa olimpíada”. No momento do jogo, eu tentava entender muitas coisas, como as razões que nos levam a torcer por indivíduos de origem humildes, que superaram centenas de obstáculos para estarem ali, lutando contra o que o mundo trouxe de melhor, lutando por um ouro, prata ou bronze, seja no judô, na natação, na ginástica, no salto com vara, na canoagem. E, por estranho que pareça, me ocorreu “Por que não torcer pra esses caras também? A maioria deles é de origem pobre, de comunidades violentas, superaram centenas de obstáculos para estarem ali derrubando, jogo a jogo, o que o mundo trouxe de melhor”. E eu torci, acompanhado do meu velho. Vimos todos os tempos da prorrogação, vimos os pênaltis um a um, até que tudo estava terminado. E ele, virando em minha direção e estendendo a mão, disse “Toca aqui. Valeu!”. E eu o cumprimentei, mais emocionado pela reação individual de um torcedor que passa longe do triste perfil irracional, do que pelo resultado final do jogo. Mais emocionado por ter compartilhado desse momento histórico ímpar com uma figura que é referência em minha vida. Xingou, praguejou, se irritou, sim. Fizemos isso juntos. Aquele momento foi ouro.

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UMA FICÇÃO

...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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- CONTOS FANTÁSTICOS DO SÉCULO XIX (Ítalo Calvino)

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