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out
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a melhor mira

Nas terras do rei, como em tantos outros reinos, existiam arqueiros batedores, preparados para eliminar qualquer visitante indesejado. Eliminar era a determinação a todas as divisões militares de fronteira. Às margens de um grande rio, no limite do reino, alguns desses arqueiros faziam ronda e ocupavam postos de vigília dia e noite. Ninguém podia entrar nas terras do reino sem autorização da guarda, nem se podia usar outras vias de acesso que não fossem as estradas ou pontes oficiais, com suas guaritas de proteção e peagem, sob pena de poder ser morto a critério dos guardas. Quem fosse pego, armado ou não, tentando cruzar as florestas e campos que circundavam o reino, era tornado cativo pelos arqueiros, interrogado por uma comissão e, se considerado perigoso, jogado em uma masmorra ou enforcado. Como era de se esperar, ficava a cargo de tais arqueiros a interpretação de uma situação como sendo perigosa ou não. Se achassem que um andarilho suspeito vagando pela floresta, rumo ao interior do reino, fosse um invasor e significasse ameaça, podiam matá-lo na mesma hora, crivado de flechas, sem julgamentos ou diplomacias.

Eficiente maneira encontrada pelo rei para afugentar ladrões e oportunistas de outras regiões, além de manter a ordem e a segurança com mão de ferro. Qualquer um que transitasse pelas estradas reais, em direção à cidade do reino, era vistoriado em algum posto instalado à beira dessas estradas. Roupas, mantimentos, ferramentas de trabalho, animais, tudo tinha que passar pelo olhar atento dos patrulheiros. Aventureiros e mercenários se identificavam e catalogavam suas armas. Equipamentos identificados como “ferramentas de ladrão” eram rapidamente confiscados e quem os portasse era detido e trancado em algum canto escuro e sujo por um longo período. Era a lei e devia ser levada à risca. O rei era um homem autoritário, perigoso e sempre determinado a usar algum exemplo público de punição à desobediência para deixar claro aos habitantes que a palavra dele prevalecia. Mas, em muitos casos, os próprios defensores da lei também cometiam excessos. Alguns desses delitos passavam incólumes, como pequenas humilhações, enquanto outros terminavam com uma vida sendo tolhida de modo violento, com posteriores ameaças a cúmplices e testemunhas. Ocultar abusos era prática comum, quanto mais o posto de vigília fosse afastado dos centros urbanos. Um desses lugares em particular, situado na mais afastada das afastadas fronteiras do reino, havia sido palco de uma atrocidade, há muito tempo ignorada e esquecida pelas autoridades, e que continuasse assim até o fim dos dias.

Caía naquela tarde uma chuva fina e ininterrupta, com relâmpagos ocasionais. De dentro de seus botes na corredeira do rio, enquanto arriscavam suas vidas para garantir uma boa pesca, os pescadores viram algo aterrorizante se mover vagarosamente através das árvores, na margem oposta às terras do reino, e não era uma sombra assustadora ou algum vulto fantasmagórico. Pior do que isso. Era o mais temido habitante das redondezas, mais temido que qualquer coisa capaz causar pânico em homens temerários: o mago. Lendário habitante de uma antiga torre dita assombrada, na floresta distante, daquele lado do rio.

Alguns pescadores acreditavam que o mago atraía energia negativa àquela região. Dizia-se entre eles que o velho feiticeiro jamais envelhecia e, por consequência, nunca morreria. Também diziam os pescadores que, quando não se pescava nada num determinado período, era porque alguma coisa estaria enfurecendo o mago naquela época e sua fúria era sentida pelos peixes e por outros animais, que procuravam se distanciar da região ou se esconder em suas tocas até seus instintos dizerem estar tudo seguro novamente. Havia ainda quem não acreditasse, por nunca ter visto tal entidade, e que o dito mago fosse apenas uma lenda antiga contada pelos mais velhos, além de fatores diversos cuja menção dizia respeito à sua obscura reputação ou origem, como, por exemplo, ser ele filho de um dragão ou uma górgona, ou de uma antiga rainha feiticeira, ou ainda ter vindo das estrelas.

Era difícil, porém, saber se um determinado boato tinha alguma verdade implícita ou se o mago apenas mantinha a superstição do povo local para seu próprio deleite e benefício, afinal, alguém temido jamais era incomodado. Mesmo o próprio rei nunca cogitou procurar a ajuda do misterioso vizinho em tempos de guerra contra os invasores do norte.

A maneira como se movia era realmente assustadora aos olhos dos pescadores. O mago caminhava lentamente na chuva, entre as árvores, apoiando-se em seu cajado, provavelmente seguro de que nenhum daqueles relâmpagos o atingiria. Os pescadores sequer imaginavam que, apesar de não olhar diretamente, o mago os observava. Graças a esse hipnotismo gerado pela figura do bruxo, os homens nos barcos demoraram a perceber que os relâmpagos haviam começado a percorrer o céu com maior intensidade.

Segundo escassos relatos oriundos de uma aldeia da região, por certo tempo, naqueles últimos anos, o velho mago teve um aprendiz. Eram raros os que se interessavam e, mais raros ainda, os que tinham inclinação ou coragem para as artes da magia. Raríssimo, no entanto, do ponto de vista do mago, era o aprendiz competente, capaz de se empenhar nos ensinamentos e alcançar resultados no mínimo satisfatórios. Os pescadores, vez ou outra, viam um jovem desconhecido pescando com rede na margem oposta e, quando paravam para pensar no assunto, constatavam jamais terem visto outra pessoa pescando naquela margem que não fosse o rapaz. O mago encapuzado, protegido da chuva por seu manto marrom, continuava subindo a margem do rio, agora penetrando mais na floresta densa, desaparecendo da vista dos pescadores. O que trouxe uma sensação de alívio aos ocupantes dos barcos, principalmente ao perceberem a chuva diminuir um pouco junto com os relâmpagos.

O mago seguiu andando com toda a calma do mundo por quase duas horas, antes de chegar aonde queria. Era uma parte da margem do rio sem árvores, apenas um gramado, um campo aberto terminando numa estreita faixa de areia. Seu aprendiz gostava de pescar ali. O velho parou na beira do rio, contemplando as águas passarem lentamente, marcadas por insistentes gotas de chuva. Em seguida, olhou para a outra margem, e viu o posto de guarda dos arqueiros reais. A chuva se adensava. Relâmpagos cortavam o céu carregado e cada vez mais escuro. Os arqueiros notaram o velho parado, apoiado no cajado de madeira. O rio era largo, mas, em alguns pontos, onde havia muitas pedras, era possível atravessar com a água batendo na altura das canelas, daí a necessidade de um posto de observação nesse local. Os relâmpagos aumentaram, figurando agora um balé no céu chuvoso. Os arqueiros se entreolharam, perguntando-se o que aquele velho fazia ali parado na chuva. Será que ousaria atravessar? Se o fizesse, deveria ser impedido com disparos de advertência e, caso persistisse, sofreria ataques propriamente ditos. O posto das sentinelas ficava em um local aberto, sem muitas árvores por perto, para facilitar a visão dos arqueiros que, de hora em hora, saíam, mesmo com chuva, para rondar as margens em busca de invasores.

O velho mago deu alguns passos em direção à margem. Um dos arqueiros, como que tomado por um instinto, fechou o punho em torno do arco, comentando com seus companheiros que certa vez, em uma taverna, tinha ouvido falar sobre o misterioso feiticeiro das terras além do rio, cuja habilidade de flutuar e até voar era notável. Caso o velho fosse essa tal figura, por mais implausível que pudesse parecer, deviam se preparar para disparar assim que ele cruzasse as águas. Ia sacar uma flecha quando os outros dois arqueiros observaram seu movimento e olharam para a outra margem do rio. O mago sacudia o cajado um pouco acima da cabeça, com as duas mãos, de forma lenta, como se séculos de existência tivessem drenado a força e o vigor outrora jovens. Antes que houvesse alguma reação por parte dos arqueiros, mesmo que um deles pudesse perceber as intenções do mago, um poderoso relâmpago atingiu o chão molhado, exatamente no meio do grupo, fazendo os três caírem no gramado enlameado, deixando seus arcos escaparem das mãos incapacitadas.

Lembrança, tristeza e dor se misturaram à satisfação da vingança, num homem cuja existência os séculos privaram de emoções.

O arqueiro que se preparava para sacar a flecha e atirar não tombou para frente, nem para trás, como os outros dois. Caiu de joelhos, tombou para o lado e morreu com os olhos abertos, fixados na outra margem, onde se encontrava o velho. Era dele a mão assassina que tolhera a vida de seu valioso aprendiz, tempos atrás, atingindo o rapaz com uma flecha certeira. O jovem sequer havia entrado no rio, na ocasião. Atitude que os arqueiros reais por vezes interpretavam como “intenção de atravessar e invadir”, enfim, um mero pretexto para matar pessoas. Naquele dia, entretanto, a estupidez chegara a um nível ainda mais baixo. O rapaz havia sido tão somente o alvo escolhido pelos três arqueiros para resolver uma aposta entre eles que dizia respeito a melhor mira. O aprendiz morrera com uma flecha no peito, ali mesmo, no gramado que os pés do mago agora tocavam.

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UMA FICÇÃO

...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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- CONTOS FANTÁSTICOS DO SÉCULO XIX (Ítalo Calvino)

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