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27
dez
13

Onde andará o Velho Nicolau

Uns o chamavam de Santa Claus, outros de Pai Natal, ou Papai Noel. Enfim, uma lenda, dessas que viraram instituição humana. O que poucos sabiam era que havia mesmo um santo por aí, cuja função através das eras consistia em aliviar o sofrimento de famílias pobres, crianças e velhos. E o que poucos sabiam menos ainda era que ele tinha mesmo elfos ajudantes, ou algumas aberrações mais ou menos nesses moldes. Elfos, duendes, anões, cada povo, cada cultura os chamava de um nome, como ocorria com o nome do santo. E foi no último Natal que aconteceu o mais estranho. Nicolau não retornou da entrega dos pedidos feitos em oração ou cartinhas desesperadas pelo mundo. Isso jamais ocorrera antes, pensavam uns elfos tomando cerveja no fim do expediente.

E eu, que estava lá, presenciei o diálogo, que transcrevo da maneira mais fiel possível.

– Velho, tô te dizendo, nunca vi isso, desse santo desaparecer assim – soltou um elfo de gorro vermelho.

As funções dos elfos eram facilmente identificadas pela cor dos seus gorros. Os verdes e os vermelhos eram operários que executavam tarefas em diversos níveis no extenso e intrincado processo de fabricação de desejos, ou milagres, como queiram chamar. Eram os famosos colaboradores. Elfos de gorro branco eram tidos como capatazes, gerentes de setor, líderes de equipe, coachs, enfim, essa classe que não põe a mão na massa, mas pratica gestão de pessoal. E, finalmente, elfos de gorro prateado que, embora em quantidades reduzidas, eles existiam e faziam parte do alto escalão, a diretoria, os burocratas. Mas esses não iam a botecos, portanto são descartáveis para a história. E lá estava o elfo vermelho, contando entre goles generosos, que jamais em seus 661 anos vira tão estranho acontecimento.

– Tô te falando – disse ele.

– Deve ter se atrasado em algum ponto abaixo da linha do Equador – respondeu o de gorro verde –, pois é de lá que vem a maioria das orações mais carentes, e você sabe que fazer tudo isso numa única noite não é fácil.

– Mesmo ele voando? – duvidou o vermelho.

– Mesmo.

– Seu cuzão, você não sabe merda nenhuma – gritou o elfo de gorro vermelho, desferindo um surpreendente soco no queixo do verdinho, começando uma briga que se espalhou pelo bar.

Cerveja daqui, socos dali, já passava das 5 da manhã do dia 27 de dezembro quando a cena se desenrolava na escura taverna da vila. O frio do lado de fora do bar, acompanhado do silêncio na vila, dava o sinal de que nenhuma notícia nova havia sobre o bom velhinho. Todos alarmados, certamente, apesar dos elfos de alto escalão não deixarem transparecer. Será que a vila deixaria de existir? Ou eles próprios não teriam mais utilidade para a época. Será que essa inédita briga de bar não era o indício do fim? Sem Nicolau na vila, os trabalhadores não sabiam nem o próprio destino, quanto mais o da vila mágica.

Talvez fosse bom dizer que São Nicolau não viajava pelo mundo em um trenó, mas percorria todas as regiões, até as mais ermas, voando, no melhor sentido da palavra, como um Super Homem. E, milagres divinos à parte, materializava os presentes do lado de dentro de todas as casas de uma única vila, usando uma projeção etérea da própria figura. A isso se devia o fato desse santo conseguir fazer tudo numa única noite. Era uma logística invejável capaz de poupar um bocado de tempo. Bicicletas, bonecas, material escolar, comida, roupas para pessoas pobres, tudo que uma criança carente pedia durante o ano era criteriosamente analisado e, se aprovado o pedido, o velhinho o materializava.

Talvez fosse bom dizer também que São Nicolau havia sido abatido, mas estava claro que os elfos desconheciam a informação. Nem este narrador sabia, até ouvir relatos de um caso ocorrido no interior do Congo à época do desaparecimento. Segundo populares de um vilarejo, caçadores de elefantes, desses que matavam os animais para contrabandear o marfim, haviam abatido uma ave ou coisa voadora muito grande. Não tinham como dizer com certeza do que se tratava, pois o bicho havia afundado no Rio Congo sem deixar sinal de sua passagem.

Talvez fosse bom dizer também que, segundo algumas crianças pobres da região, um espírito em forma de homem tinha visitado algumas casas e cabanas à noite, deixando alguma coisa e indo embora. Geralmente deixava algo de que a família precisava, e as crianças pensaram ser um tipo de espírito bom. Mas sem corpo não havia evidência, e a notícia soou um tanto sensacionalista nas notas dos jornais, caindo no descredito, sem jamais chegar aos ouvidos dos elfos, se é que eles existiram por muito mais tempo depois daquela briga de bar.

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26
abr
13

Beijaço no Laerte

Beijaço no Laerte

Apesar de eu não ser ilustrador ou chargista, o Ficção Fantástica também aderiu ao “Beijaço no Laerte”.

Boa noite.

22
set
12

as estrelas e seus nomes

Imagem: AstronomyOnline.org

Particularmente, me agrada saber os nomes das estrelas. Saber que da minha janela vejo, neste início de primavera, a Canopus e a Sirius. E que diante dos meus olhos se encontra a constelação de Camaleão, tão pequena e camuflada, à sua própria maneira. Também me agrada saber por onde andam Marte e Júpiter, saber que é quase impossível ver as mais próximas da linha do horizonte. Olhar para as estrelas, numa forma bastante simplificada de comparação, é como ver um show realizado nos anos 70, de uma banda que você gosta, mas que está assistindo pela primeira vez: o que vê agora inédito aos teus olhos, já aconteceu há muito tempo.

Estrelas são história, nossa e do Universo. São, sim, passado, mas também presente, pois nos é apresentado hoje.

Que seria o passado de uma estrela senão brilho, fraco ou intenso, nos banhando, como uma bagagem histórica a cintilar no negrume do vazio espacial?

Pensando bem, por que me agradaria saber nomes de estrelas quando sua grandeza reside no anonimato?

E, caso fosse necessário, eu mesmo poderia nomear um punhado delas. Chamá-las pelos nomes mais belos, nomes de pessoas importantes em minha vida e que já se foram, como uma homenagem. Homenagem essa tanto às estrelas quanto aos que se foram. As possibilidades são infinitas.

Infinitas são, também, as chances de vermos além do pequeno ponto a reluzir, como se cada uma delas fosse um buraco de fechadura e que bastasse um olhar através dele para ver inimagináveis cenários, mundos além da nossa concepção, ou um lugar agradável, onde nos sentiríamos bem. Apenas bem, nada mais.

Eu poderia achar que aquelas luzes, pontos dardejando nossos olhos com brilho cósmico, de algum modo gostassem de me observar como gosto de observá-las. Será possível que queiram saber meu nome, saber por onde ando. E se quisessem se manifestar? Romperiam a dúvida de séculos, cuja essência se oculta atrás de uma mera pergunta? Também elas vivem de olho em nós?

Ah! Pudera eu ser amigo das estrelas. Conhecer cada uma delas e jamais esquecer um só nome. Pudera eu ser amigo das estrelas. Me agradaria mais ainda saber seus nomes, saber tudo sobre elas. Tudo, não menos que tudo.

Particularmente… me agradaria.

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23
jul
12

Quatro livros no ano

Imagem

“Brasileiro lê, em média, quatro livros durante o ano”.

( http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-03-28/brasileiro-le-em-media-quatro-livros-por-ano )

Volta e meia deparamos com algo assim, travestido de notícia, circulando em revistas, telejornais e na internet. Mas afinal, tais dados são importantes? De que forma? A imagem do post revela quatro pequenos livros (de 150 páginas no máximo) ao lado de dois monstros (que ultrapassam fácil as 600 páginas). Portanto, sem tirar o crédito da importância que tem tal notícia, ou de que estatísticas essas notícias revelam, seria melhor tentar formular a seguinte questão: o quanto realmente lê uma pessoa em nosso país? Como se mediria isso? Qual é a qualidade dessa leitura?

Segundo essas mesmas pesquisas, o livro mais lido é a Bíblia Sagrada. Daí se vê como a questão é complicada, afinal, quem lê a Bíblia, lê trechos, nunca ela toda. Sem contar os livretos de frases, onde se abre numa página e se lê só aquela no dia. A pesquisa também revela que muitos não terminam a leitura de dois dos quatro livros por ano que se tem na média.

O alemão lê X livros, o americano e o inglês leem Y. Mas isso é realmente apenas reflexo da educação, dos investimentos ou da falta deles no ensino?

Clássicos, contemporâneos, biografias, toda leitura é válida. Mas os quatro “livros” do ano de um determinado sujeito seriam bons? A melhor pergunta para esse tipo de pesquisa não seria “como lê o brasileiro?”, ou “qual seu olhar na leitura?”

Por obrigação ou por gosto, ler é importante. E a leitura devia ser analisada num espectro maior de estudo. Não apenas por uma quantidade lida anualmente, nem pelo tamanho das obras, mas pelo teor, pela absorção, por conhecimento adquirido, por satisfação.

10
maio
12

Meu filho não serve para comandar

 Magnífica até na hora do parto, a senhora elfa da casta guerreira de Aedorath mantinha a compostura diante da dor e das contrações. Seu primeiro rebento estava prestes a nascer. Do lado de fora da antiga mansão na floresta profunda, cercada de árvores milenares, cujas histórias se confundem com a dos elfos, estava o pai, Lorde Aedor III, afundado em preocupações triviais concernentes a todo pai de primeira viagem. Horas se passaram até que se ouviu o feliz choro do bebê elfo, filho do mais nobre homem da casta guerreira.

Pouco depois, Aedor se impacientava na sala ao lado dos aposentos de sua senhora, mãe do pequeno Eydian. O nome tinha sido escolhido pelo pai, meses antes, para honrar o bisavô da criança, um grande combatente que perdeu a vida na defesa do território contra as hordas de goblins saqueadores. O velho Eydian caçava como nenhum elfo jamais caçou, e trazia cabeças e mais cabeças de goblins para serem queimadas numa enorme fogueira no centro da vila élfica.

Pode parecer estranho tal comportamento para os elfos, mas essa era uma variedade incomum de elfo que cultivava em seu interior o que chamavam de “honra da espada”. E muitos deles superavam os mais lendários guerreiros humanos em feitos e conquistas.

Mas o que dizer do pequeno Eydian? Quando seu pai o viu, pareceu morrer em decepção. Era uma criaturinha miúda, até mesmo para os padrões dos elfos, quase puro osso e pele, e tão leve quanto um filhote de cachorro. Mirrado.

Apesar de ver o que não queria, Lorde Aedor seguiu determinado a transformar o filho em um guerreiro para o substituir no comando da casta. Mas, à medida que crescia, o pequenino começava a se interessar por histórias de magos, contadas pelos velhos anciãos da vila, e achava que com a magia, poderia se tornar tão forte quanto os guerreiros, e dar orgulho ao seu poderoso pai.

Sua mãe, a senhora Enora, o tempo todo o vigiava, e o seguia para onde quer que fosse, nas brincadeiras, nos estudos e nos treinos de luta, de onde saía mais machucado do que proficiente.

Chamava a atenção dos demais o menino não se referir à senhora Enora como mãe, mas apenas como Enora, ou, em situações sociais, como senhora.

Ao passar pela adolescência, Eydian sentiu-se mais e mais humilhado e abandonado pelos cantos da mansão. Seu pai pouco dava atenção a ele e culpava a mãe pelo garoto nascer fraco e magro, exigindo que ela lhe desse um filho capaz de reinar em seu lugar. Isso significava que, apesar de Eydian ser o primogênito, seu pai provavelmente daria um jeito de tirar seu direito à senhor da casta de Aedorath para passá-lo a um segundo filho. Definitivamente não gostava do jovem elfo.

— Ele é incapaz de sustentar o próprio peso — dizia o pai, — quanto mais lutar em uma batalha ou comandar meus exércitos. Meu filho não serve para comandar.

A mãe ouvia calada, ora chorando, ora envolvendo o menino nos braços, como se o protegesse do próprio pai, ora tapando os ouvidos do pequeno para não magoá-lo. Mas o menino ouvia sempre.

Quando Lorde Aedor viu que não havia solução para o crescimento frágil do garoto, tomou uma decisão que a maioria dos guerreiros consideraria bastante sensata, mas que a senhora Enora chamou de monstruosidade. Mas ela nada soube até que tudo estivesse consumado.

Numa comitiva de mercadores, o Lorde enviou o garoto para a cidade dos homens, aos cuidados de um velho e poderoso mago, seu amigo de aventuras em outros tempos. Tudo havia sido planejado sem levantar qualquer suspeita. Os mercadores da comitiva foram comprados pelos seus preços, para ficarem calados e executarem o plano do senhor de Aedorah.

Numa tarde de outono as engrenagens da intolerância de um pai pelo seu filho foram postas em movimento. Derrubado por um encantamento, o jovem só foi acordar na cidade dos homens, nos aposentos frios de uma torre estranha, cercado de velhos livros e na companhia de um velho homem.

Nos primeiros dias, chorava e gritava que queria voltar, que queria fugir. Mas com o passar do tempo foi se acomodando à situação.

O humano de idade avançada, ostentava um vigor incomum para a idade e Eydian pensava que se fosse a metade do que aquele homem era, talvez seu pai não o banisse secretamente de sua terra natal. Sob a tutela desse misterioso velho forte e grande, Eydian começou a conhecer o caminho da magia e determinou a si próprio que aquilo seria a “honra da magia” e que a honra da espada ali não tinha vez.

Estudava ferozmente cada manuscrito e tomo colocado diante dele durante os anos e o velho achava isso muito proveitoso, pois já havia tentado ter um aprendiz, mas os que precederam o pequeno Eydian eram mais estúpidos que cavalos e nada serviam para a magia. E o rapaz tinha algo que chamava a atenção. Parecia entender a magia, parecia capaz de interpretar os livros de forma correta e guardar a informação.

E assim o jovem Eydian cresceu, não a ponto de se tornar um elfo do porte dos guerreiros de seu pai, mas ainda um elfo de estatura mediana, apesar de magro e fraco. Existiam dias em que quase agradecia ao pai por tê-lo enviado para viver com um mago, mas se lembrava da senhora Enora, e esse minúsculo sinal de gratidão se evaporava sem mesmo ter a chance de se firmar em sua mente.

Sempre que se lembrava do quanto sua experiência de criança o traumatizara, murmurava para si mesmo:

— Não desejo ser senhor de nada. Só anseio a magia.

O abandono na infância deixou profundas marcas, e o jovem se tornou bastante tímido e incapaz de se impor em situações de disputas e divergências. As duras palavras do pai ecoavam em sua memória: “meu filho não serve para comandar”. E, sempre que elas voltavam para assombrá-lo, buscava conforto no estudo da magia. Tudo o que interessava a ele era estudar, se aventurar um dia e buscar poder e conhecimento mágico. Apesar da vida de um elfo poder durar séculos, o jovem desejava jamais pisar em solo aedorathiano novamente enquanto seu pai vivesse, ainda que a saudade daquela mulher o fizesse sofrer dia após dia. A mulher a quem Eydian, no dia de seu rapto, chamou pela primeira vez de mãe.

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05
abr
11

E.T.A. Hoffmann morde e também assopra

É impossível não notar as semelhanças entre o personagem androide de Morde e Assopra e o autômato de E.T.A. Hoffmann. É bem provável que Walcyr Carrasco tenha tido contato com a obra de Hoffmann. Os mesmos elementos estão lá, apenas com algumas correções de época, servindo (voluntária ou involuntariamente) como forma de mascarar a fonte. Trata-se da ideia do autômato, criado por um cientista, pelo qual um estudante se apaixona. É o mesmo roteiro apresentado por Hoffmann, salvo, como já dito, diferenças básicas de época. A criatura de Hoffmann é Olímpia, a de Walcyr é Naomi e, incrivelmente, as duas tocam piano perfeitamente e, num determinado momento da história, ao tocarem piano, arrebatam o o coração de algum rapaz ingênuo ou cego. Apesar de Hoffmann tender ao fantástico, quando trata da essência que faz o autômato parecer vivo, Carrasco ateve-se a recursos científicos e tecnológicos (ou será que não?). Recursos esses que nos levam a mais fontes.

Portanto, cabe aqui outras referências quando o assunto é a mulher-robô do autor de novela.

Não se pode deixar de fora o filme Mulher nota mil, famoso nos anos 80, onde a criatura, objeto de desejo, foi idealizada por garotos incapazes de ser populares e, consequentemente, de se envolver amorosamente com mulheres de verdade. Garotos com um computador e uma dose de sorte nas mãos. Ainda sobre a necessidade de ter um sentimento preenchido temos Pigmaleão e seu amor pela mulher ideal, construída por ele e trazida à vida por Afrodite, devido à insistência do escultor. Portanto, a ideia de autômatos cuja finalidade fosse a de realizar tarefas para nós ou suprir uma necessidade sentimental não é recente, e sim, basicamente, dos primórdios da cultura. O Golem, criatura antropomórfica, moldada com barro, era forte, obediente e controlável. Era o defensor da sociedade judaica. E, na lenda judaica, o Golem é a representação básica do homem, criado por Deus. Esse homem primordial seria também um autômato em essência (imagem e semelhança). Bem, voltemos à figura mecânica feminina, que é o foco noveleiro do momento.

Os robôs da ficção científica povoam livros e filmes, como Blade Runner, onde o homem se apaixona pela máquina que deveria eliminar, ou os robôs servos da literatura de Asimov. Tais elementos nos levam a questionar o que há de amor ou intimidade reais entre homem e máquina (Alguém aí se lembra de Cherry 2000, péssimo filme sobre uma boneca robô de sexo?), ou o por quê de humanizarmos as máquinas com atitudes e posturas humanas. Exemplos mais agressivos podemos notar em Battlestar Galactica, com os modelos femininos de cylons.

É óbvio que o autor noveleiro terá em mãos maiores recursos técnicos do que Hoffmann jamais sonhou em ter para prolongar a trama, podendo evitar semelhanças ou mascarar os caminhos até as fontes onde bebeu. A novela da Globo tem tudo para ser decepcionante (assim penso eu, pois, em geral, elas são), e a boneca de sexo do autor Walcyr Carrasco será o estereótipo copiado da literatura para a forçar uma ideia generalizada de que todo homem, por amor possessivo, abre mão de tudo o que conquistou na vida, põe o futuro a perder e é capaz de vender até a mãe. Ou será possível preferir a superficialidade do padrão Globo de um ideal de amor (tantas vezes repetido em novelas) ao caráter substancial do personagem ensandecido de Hoffmann, enganado e contrariado, vítima de chacota, ainda que apaixonado?

Particularmente, fico com Hoffmann.

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23
dez
10

La Nuit de Noël

Gèrard havia bebido um pouco além da conta e já estava acostumado a se virar em tal estado. Exagerar era com ele mesmo. Mas, com o julgamento demasiado comprometido, ainda se achava apto a dirigir. Ao menos acreditava nisso, pobre coitado. Não fora pego por nenhum policial trafegando bêbado, pois na noite em questão não havia ronda como de costume. É verdade que tentou umas quatro vezes, antes de acertar o buraco da chave na porta do velho Peugeot. Deu a partida, ligou o aquecedor, pois fazia 4 graus negativos, e ligou o rádio, para ouvir suas canções francesas de amor.

Desnorteado, cantarolava enquanto atravessava as ruas escuras de um bairro de Toulousse, indo rumo a Saint-Orens-de-Gameville, onde morava. O excesso de malbec na corrente sanguínea o aquecia melhor do que o aquecedor do automóvel, que, aliás, fedia a plástico queimado. Mas há que se compreender que era um carro velho, tinha lá suas peculiaridades. Um pouco de neve começara a cair e Gèrard acelerou, na ânsia de estar em casa antes da neve aumentar de intensidade. Sim, ele acelerou, em pista molhada e com neve começando a atrapalhar a visão. Francês malandro que era, seguiu por uma rua pouco movimentada e de iluminação escassa. Era como um atalho para ele.

Para o azar de Gèrard, ou do resto da população de crianças em todo o planeta pelo resto dos dias do mundo, um trecho da rua tinha a iluminação danificada. Nesse momento, seu rádio tocava a exuberante voz de Piaf cantando Non, Je ne regrette rien. A neve batia um pouco mais forte em seu para-brisas, e ele não viu o outro veículo cruzar a rua. O Peugeot acertou em cheio o trenó vermelho que cortava a ruela no início daquela fria madrugada natalina que precedia o amanhecer de um 25 de dezembro. Renas foram arrastadas pelo asfalto, enquanto um senhor de idade, rechonchudo e vestindo casaco vermelho, veio a se chocar contra o para-brisas, espalhando vidro estilhaçado e um pouco de sangue dentro do automóvel. O velho rolou sobre o teto do carro e caiu no chão. Fiapos de barba branca ficaram enroscadas no que sobrou do para-brisas.

Extremamente chocado e quase fora de controle, Gèrard saiu do carro com a intenção de ver se o senhor de idade havia sobrevivido. O vento gelado castigava as costas de Gèrard, enquanto ele tentava manter o velho consciente. Levava as mãos à cabeça, gritava por socorro, mas a rua deserta pouco tinha a oferecer. O velho, porém, não resistiu. Morreu estirado no asfalto gelado, a cabeça rachada e o rosto coberto de sangue. As renas, pensava o francês embriagado, certamente deveriam ser sacrificadas na manhã seguinte, devido às fraturas. Não pôde imaginar o porquê de ter pensado isso na ocasião, bem achou que fosse coisa do malbec.

Mas, de repente, como se para aterrorizar Gèrard e seu coração deveras humano, um chiado crescente e constante cortou a escuridão gelada e ele pôde ver, incrédulo, o corpo do velho murchar até virar cinzas. O mesmo ocorreu com as renas, as roupas vermelhas e o trenó diante dos olhos estupefatos do motorista embriagado. E, naquele instante, Gèrard acabara de conceber a dimensão do dano que causara a toda a humanidade: havia matado le Père Noël, o Bom Velhinho, mais conhecido por nós como Papai Noel.

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ALGUNS DIREITOS RESERVADOS

UMA FICÇÃO

...seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê — coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora — é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidades inconciliáveis.

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- CONTOS FANTÁSTICOS DO SÉCULO XIX (Ítalo Calvino)

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